Insensatez.

Publicado: 16/09/2010 em Do peito

Vai meu coração ouve a razão,
usa só sinceridade.
Quem semeia vento, diz a razão
colhe sempre tempestade.

Tom Jobim – Insensatez

Acordei de uma noite não dormida, com o rosto ainda cheio de lágrimas, nascidas por ela. Ela está no quarto, ouço que já acordou, então saio para não a encontrar. Não penteio o cabelo, não troco a blusa que ela rasgou quando eu disse que não sentia mais, que nunca senti. No espelho do carro vejo meu rosto ainda vermelho do sangue que brotou leve do lugar que sua unha bateu.

Saio parecendo saber onde quero chegar. Saio com o querer de voltar para dizer que a odeio, mas não sei se é isso. Ando por um bom tempo e depois paro em lugar nenhum, mas tudo bem, comparando com não saber o que sinto não saber onde estou é um problema menor.

Penso no início, quando a única coisa que sabíamos era o querer. Antes de ela partir e voltar, antes de eu sumir para nunca mais a deixar. Mas a deixei novamente, e não quero nunca mais, igual às outras vezes. “Sempre parti incompleto, deixando a outra metade em ti, e isso sempre me fez voltar, mas hoje estou aqui totalmente, inteiro em mim”, escrevo, de forma quase inelegível, em um papel que jogo fora, deixando o vento levar. Acredito que de alguma forma ela receberá e isto me incomoda. Queria tudo só para mim e em mim, diferente de ontem, quando, finalmente, ela me viu por inteiro. Tenho certeza que nesse momento ela tem certeza de nunca-mais-algo-de-ti.

Já não é cedo e eu preciso de um café. Atravesso a rua, compro um vinho, volto ao mesmo lugar e bebo todo de uma vez. Quebro a garrafa e vou juntar os cacos, pois me dói a consciência. Vi uma criança passar há pouco tempo e não quero que ela se corte na volta. Feridas bastam as minhas que ainda estão abertas e sangram, bem mais do que sangrou o corte no rosto. Ela é só uma criança.

Será que desfaço por tanto querer? É confusão isso que me dói no estômago, como se gritasse que já é tempo, apesar de não especificar tempo de quê? Será que o querer é que me conduz o passo? Esta dor no peito é um desejo enorme de magoá-la, tão egoísta, tão urgente? Não preciso das respostas, só não queria as perguntas.

Preciso feri-la. Preciso dizer olhando no seu rosto que não existe mais nada, que o próprio vazio foi consumido pelo que existe. Entro no carro e volto para casa. A confusão já não existe, tudo é claro agora. No caminho sigo pensando nas vezes em que me magoei e a culpando por todas às vezes, mesmo quando não esteve presente, mesmo quando foi culpa de todas as outras.

Abro a porta de uma vez, pronto para a ofender. Ela corre, com a mesma roupa suja de ontem, mas com o rosto banhado de novas lágrimas. Corre e se joga em meus braços, dizendo que me ama, pedindo perdão até mesmo pelos erros que eu cometi. Eu a abraço forte e digo baixinho que também a amo, enquanto a porta se fecha atrás de nós.

comentários
  1. Babita disse:

    Manéu, só tenho algo a dizer: Tu és um aloprado!!!! Porra, se eu soubesse não tinha lido agora na hora de dormir!!!! 😀

  2. ahoradoocio disse:

    Obrigado Freudita.

  3. Aninha disse:

    Lindo, Manoel! Muito bom mesmo.

  4. Juw disse:

    Achei pancada o texto, gostei demais da descrição, me fez ter a sensação de todo o percurso, se tivesse mais pra ler seria ótimo. Gosto desse tipo de texto crônica-conto (?).

  5. Val disse:

    Tá, só pra registrar que li, os 2… hehehe

  6. Nay disse:

    Adoro a música, adoro o título e adorei o texto! =)
    Acho que vale ressaltar o fato de “Insensatez” já ter sido, inclusive, nome de trabalho meu na faculdade! rsrs.

    bj, Manoel!

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