Arquivo de outubro, 2010

All I need is somewhere
I feel the grass beneath my
A walk on sand
A fire, I can warm my hands
My joy will be complete

Belle and Sebastian – Asleep on a sunbeam

 

O despertador toca enquanto o sol ainda está nascendo. Ao seu lado ele dorme enquanto um pequeno feixe de luz passa pela janela e acerta seu rosto e ela pensa o quanto ele é lindo. Levanta, vai até o banheiro, olha-se no espelho, não gosta do que vê. Prende o cabelo em um rabo de cavalo e molha o rosto para despertar. Ela não queria sair, mas sabe que precisa, ainda mais depois dos últimos dias. O resultado do exagero.

Logo ela está correndo, passando por casas ainda quietas; por carros que já deixam o céu mais cinza; por pessoas que não olham para ela. Por um minuto isto faz com que ela se pergunte quando todos ficaram tão frios ao ponto de sentirem vergonha de dizer algo para um desconhecido qualquer que cruza seu caminho.

Ela corre com um bom ritmo. A volta ao exercício foi difícil por conta da torção que sofreu no pé, o que fará com que ela logo se sinta incomodada. O tempo segue e são cinco, dez, vinte, trinta, cinqüenta pessoas correndo em sua direção. “Gente demais, espaço de menos” ela pensa. E antes que o pé comece a doer, ela pára para descansar um pouco e fica pensando que deveria viajar enquanto não começa a chover. Tem tantos lugares que ela gostaria de ir esses dias, mas ela queria ir para algum lugar que ainda não tivesse passado alguma vez pela sua cabeça. Ele até que poderia dar uma forcinha, dar idéias. Uma viagem para um lugar próximo já seria uma ótima opção, desde que os dois se divertissem. Há quereres em comum e há diferenças gritantes, mas se ela tiver que fazer uma fogueira para se aquecer, por ela tudo bem, desde que ele não se incomode em andar o quanto ela quiser.

Ela vê a pequena cicatriz que tem no braço e lembra-se de quando, décadas atrás, estava brincando com algumas amiguinhas na rua, quando tropeçou e numa reação normal esticou os braços à frente para não se machucar. “Pelo menos hoje está bem menor”, sempre a mesma afirmação. Até hoje ela lembra muito bem de quando aquele garotinho com quem ela nunca tinha conversado a ajudou a levantar, preocupado em saber se estava tudo bem. Hoje aquele garoto é um adulto, pai de duas crianças, dormia com um pequeno feixe de luz no seu rosto e continua com aquele mesmo sorriso que ela viu pela primeira vez quando respondeu a ele que estava sim tudo bem.

O tempo passa um pouco mais e ela já não quer mais correr. “Melhor voltar, amanhã recupero o tempo que perdi hoje”, do mesmo jeito de todos os outros dias. Vai caminhando, pensando no monte de trabalho que a espera mais tarde. Às vezes é um saco, às vezes é somente alegria.

Ao entrar escuta o barulho de pratos e xícaras. As crianças já tomaram banho e estão sentadas assistindo televisão, esperando o horário de sair. Ele está na pia, lavando os pratos, de terno pronto para ir trabalhar, aguardando apenas ela retornar. Ela passa pelas crianças, pisando na ponta dos pés e pede silêncio como o dedo sobre o sorriso, enquanto elas ficam rindo olhando para o seu jeito engraçado. Ela chega perto de mansinho e antes que ele perceba passa os braços a sua volta, apertando seu corpo contra o corpo dele. Ele se assusta e pensa em virar para abraçá-la. Desiste. Ele já sente seu coração bater forte junto ao dela.


Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Legião Urbana – O livro dos dias

Querida amiga,

Tentei por várias vezes e durante certo tempo ver o melhor em tudo, construindo um encanto que seria motivo suficiente para seguir e viver. Mas há o superficial, o repugnante, as tristezas, os vícios, os seres… Com o tempo, o encanto se desfaz e é provável que fique apenas a tristeza, a desilusão e, obviamente, o desencanto. E assim nós nos desconstruímos, dividindo-nos em pedaços menores, buscando tornar a dor pontual, menos agressiva, menos angustiante. Porém, nunca é assim. As dores são pontuais, mas precisamos dos pedaços juntos para sermos completos e, como conseqüência, as dores se tornam uma só: a nossa dor.

Não falo de compartilhamento. Eu tenho as minhas dores, você tem as suas, as pessoas que amamos tem as dores delas. Mesmo quando é por um mesmo motivo, cada um tem a sua própria. Eu não entendo suas dores, mal entendo as minhas!, que são tantas que eu poderia passar a vida inteira observando e me perguntando os porquês que ainda assim eu morreria antes de sequer ter a primeira resposta. Mas é preciso viver ao invés de apenas sobreviver. Temos que encarar as dores e dizer que vai ficar tudo bem, algum dia, mesmo que ainda distante. Parece fácil dizer, certo?, mas é que realmente é muito fácil dizer. Fazer é outro século. Se coubesse apenas a nós mesmo é provável que levasse um tempo mais razoável, mas como tomar conta de si sozinho num mundo em que outras seis bilhões de pessoas estão perdidas da mesma forma que você? Quem não se sente assim já está morto. Seria bom acreditar fielmente que vai ficar tudo bem, que todos os problemas são solucionáveis, que as pessoas que amamos nunca vão nos decepcionar, mas não somos mais crianças e sonhos e crenças infantis devem terminar junto à infância. Pessoas dizem não querer deixar morrer jamais a criança que existem dentro delas. Metade disso é acerto, a outra é equívoco.

Uma vez perguntei à minha mãe porque a lua me seguia quando eu caminhava e ela respondeu que era porque ela seguia os meninos bonitos. Hoje somos racionais, mas tem gente que prefere acreditar que a lua o segue por sua beleza; que os anjinhos lavam o céu quando chove; que ele é azul porque deus pintou assim; que se cavarmos um buraco bem grande no chão vamos chegar à China; que cebola é bom e que se comermos verdura vamos ficar mais fortes; que papai Noel existe e que se ele não deu presente para o seu amiguinho é porque ele foi ruim com os pais e você deve ser bonzinho. Hoje, é quase tudo preto no branco, não existem outras cores: a lua tem movimento de translação; a chuva é culpa do ciclo de evaporação-condensação; o céu é azul por culpa da forma como a luz se espelha na atmosfera; que para chegar à China você precisa gastar muito dinheiro e fazer uma viagem de horas em um avião; que cebola definitivamente é horrível e que comer verdura não te deixa mais forte, mas ajuda na dieta; que Papai Noel vende em 12x sem juros no cartão e que seu amiguinho mais bonzinho não ganhou presente porque ou o pai não podia, ou não liga ou gastou com comida, e que aquele seu amiguinho que joga o prato na mãe e que bate na cara do pai ganhou de presente a bicicleta que você sempre quis. Assim é a vida. Isto é normal, é se tornar adulto. É uma merda, mas é assim. Merda é uma terceira cor com a qual convivemos e conviveremos muito.

Como se já não fosse difícil suficiente crescer enfrentando a insegurança, a timidez, a incerteza, logo chega a época em que o coração perde a razão que foi morar no cérebro em um processo de transferência inexplicável e que deve ser culpa de algum ancestral filho da puta que nos doou o maldito gene. Passamos então a nos tornar incompletos mesmo com todos os pedaços doloridos que juntamos para simplesmente sermos. Não sei como, mas em um dia qualquer encontramos um pedaço livre, que de tão lindo não podemos manter apenas com nós mesmos e doamos a alguém esperando que haja interesse, carinho, abrigo e um eterno desejo. Mas esse pedaço é perdido por quem deveria cuidar e no seu lugar fica um buraco que só sumirá ou diminuirá suas dimensões quando outros buracos surgirem por outros descuidos. E você pensava que quando fizesse dezoito anos iria ganhar um carro…

Porém, nossa dor às vezes torna-se nada quando vemos as pessoas as quais queremos bem não tão bem. Essa empatia pelo querido é natural, e se para alguém não é, tenha certeza que isto fala mais sobre a pessoa em si do que sobre o sentimento citado.

Quando nossos amigos choram devemos chorar junto ou enxugarmos suas lágrimas. Quando o mundo parece um pesadelo cabe a quem tem carinho mostrar que o mundo pode ser um sonho, nem que seja apenas com dois personagens que se divertem e vivem apenas quando estão juntos. Esses momentos podem ser os menores e os menos duradouros, mas com certeza são as lembranças que nos confortarão quando os pesadelos voltarem. E ainda existem vezes em que alguém quer nos confortar, mas faltam as palavras, que somem, e não sobra uma sequer para demonstrar o sentir imenso, o carinho, o amor.

Li há poucos dias que o ciúme entre um casal existe e é totalmente aceitável quando um deles dá um abraço em um terceiro. Pode parecer tolice, um gesto pequeno, mas, como foi lido, por alguns segundos o mundo de quem vê pertence totalmente à outra pessoa, um mundo no qual ela escolheu viver, mas que provavelmente não tem a escolha de partir. Por pouco tempo, esse alguém foi arrancado do seu mundo e resta apenas ficar sozinho, perdido, em qualquer lugar longe dali, ainda que por alguns eternos segundos.

Não vou mentir para você. Viver é difícil, bem mais do que deveria ser na verdade. A conclusão é que o mundo nos decepciona, machuca, tenta nos corromper. Porém, há alegria, há diversão, há coisas boas. Então esquece vai, deixa para lá, vem e nos abraça, pois durante esse espaço de tempo nós seremos seu mundo, enquanto o nosso será você, e nós não precisaremos de mais nada.

Com carinho,

 

O boxeador.

Publicado: 21/10/2010 em Do peito
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I am older than I once was
And younger than I’ll be that’s not unusual.
No it isnt strange after changes upon changes
We are more or less the same
After changes we are more or less the same
Simon & Garfunkel – The Boxer

 

A fumaça nos prédios com os garotos e as garotas com frio nos trilhos e o cheiro da brisa e a cevada deixa azedo o sorriso na partida e na chegada e as putas nos postos nas ruas nos cantos são contos e encantos aos ricos e há miséria nos gritos e nas promessas e o incerto e as mentiras e o resto e a estação em que não chega e não deixa voltar faz uma clara diferença dos partires do querer e o do conseguir e é tudo merda e mentira e não está mais o que foi construído e fica apenas o que é vidro e se despedaça e a única coisa boa é ficar à toa e quem sabe se o engano é para sobreviver enquanto morre sem perceber e aos poucos enquanto deitado no conforto com o coração velho tolo que muda o mundo quando tudo está mudo mas que silencia quando há som e no seu rosto sério sob o céu azul escuro se desfaz no dia cinza mas ninguém vê ou percebe ou sente ou se despede já que os olhos talvez não fechem e os dedos talvez hesitem enquanto alguém cede e inverte e perde e se diverte com o adeus e o até mais e o talvez eu não volte já que é hora e não há qualquer novidade e deixe mas volte e fique bem e deixe mais e deixe mas volte e deixe mais e não olhe ou pense ou pese e é você só você ninguém além de você que se esconde e finge que é bom e finge cantar no tom enquanto o tempo desafina então também finja ser bom ou apenas finja já que parece o mais certo ainda que fique confuso quando visto de perto enquanto cai o céu e o bom senso e o bêbado e não quero estar só pois não tenho história além da minha e se eu cair também não é nada demais pois talvez não haja saudade mas estou sendo egoísta e sei que é mentira já que na origem existe então eu volto contente e sinto que mesmo assim estou perdido e que finamente pela primeira vez não faço idéia de como fazer parecer que está a meu favor o destino e eu sangro e sonho e acordo e morro para sempre sozinho até a próxima avenida.