Arquivo de fevereiro, 2011

Faaca

Publicado: 03/02/2011 em Crônicas, Do peito
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Quero ver você dançar
Em cima de uma faca molhada de sangue
Enfiada no meu coração.
Mombojó – Faaca

 

O sangue cai gota a gota enquanto aperto com força o resto do prato que quebrei. Ela não expressa qualquer reação, embora eu a olhe fixamente, o que faz com que se torne ainda maior a raiva que sinto. Tenho que me concentrar para não perder a razão, mas não consigo.

“Ela não sente nada” é a única coisa em que consigo pensar de forma clara. O resto é um turbilhão de xingamentos e histórias que haviam morrido, mas que voltam agora como se fossem eternas e me fazem pensar “Puta!”, mas é “Puta” que sai da minha boca para ofendê-la sem efeito algum, enquanto ela apenas sorri.

Posso matá-la agora mesmo e de repente esta é a única solução. Penso por um segundo em como chegamos até aqui. Antes éramos tanto e tínhamos tantos planos e então, quase que sem perceber a diferença de tempo, estou na cozinha com o que sobrou do prato me cortando e eu sangro e penso e nunca estive tão certo de algo: devo matá-la. Se ela chorasse, gritasse ou xingasse eu a perdoaria, mas o silêncio não, não posso mais suportar.

Ela olha para a janela como se não houvesse nada em volta. Livro minha mão e sem pensar pego a faca que se encontra em cima de mesa e caminho em sua direção. Ela percebe o que fiz, mas nada faz. Paro a sua frente por um segundo esperando dela apenas um suspiro que me faça desistir, mas não há nada. Então, com um único golpe, enquanto a vejo fechar os olhos, sinto a faca que carrego rasgar-me o peito, trazendo-me dor junto a sensação de estar finalmente livre.

Caio de joelhos agarrando-me em suas pernas tentando-me em vão me segurar, mas não consigo e caio sobre seus pés. O sangue empoça em minha volta, mas antes que eu deixe de ter qualquer tempo posso ainda vê-la sentar ao meu lado, passar o braço delicadamente embaixo de minha cabeça e sorrir para mim, olhando-me nos olhos, enquanto passa a mão em meus cabelos e em meu rosto, fechando meus olhos e beijando minha boca uma última vez antes de dizer adeus.