Arquivo de novembro, 2010

Eu não passo de um malandro,
De um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola.
Novos baianos – Mistério do planeta

 

Quando acordo pela manhã ele me envolve e eu me sinto dele. Eu me desconstruo e me perco em seus braços, mesmo quando não há firmeza. É tudo tão urgente, tão necessário. Eu me sinto tão bem. Não quero sair, mas não tenho opção. Deixo-o com um beijo, com todo o amor que posso sentir, e vou embora. Não gosto de olhar para trás, mas sei que ele fica como quem quer mais e não se despede, nunca se despediu. A única certeza que ele tem é que logo voltarei e serei somente dele, enquanto ele será somente meu.

Então chego e ele já está me esperando. Não há urgência, é exatamente o inverso. É como se houvesse todo o tempo do mundo e tudo fosse durar eternamente. Eu lhe abraço e ele me beija com calma, suave, enquanto desço as mãos pelo seu corpo, tirando sua blusa devagar, enquanto ele passa a mão no meu pescoço, nos meus cabelos, beijando minha boca, meu rosto. Ele tira toda a minha roupa, fazemos amor e eu deito a cabeça sobre seu peito, falando sobre coisas bobas, tão necessárias, que me fazem sentir que eu não quero ir embora jamais, mas preciso ir. Despedimo-nos sempre, como se fosse esta a última vez que nos veremos. É necessário. É o que preciso.

Então o encontro no mesmo lugar de sempre e nós sentamos para conversar. Ele não me toca e eu gosto que seja assim. Eu quase nunca falo muito, enquanto ele sempre tem muito a dizer. Mas não é chato, pelo contrário, ouço sempre tantas coisas boas que sempre me impressiono. Adoro olhar sua boca enquanto ele fala de um jeito somente dele, como se cada palavra fosse pensada e bem distribuída em frases feitas para me encantar e que me fazem ser algo além do que realmente posso ser. E nós passamos horas e horas assim e é como se fosse tudo bem rápido. Não queria partir, mas tenho que ir. Parto pensando em tudo o que ele me disse e já sinto sua falta.

Então o encontro e quando abro a porta não tenho tempo de dizer qualquer palavra. Ele apenas me puxa e me engole, sem deixar brechas para que eu possa dizer não, e quando percebo, ele já está dentro de mim, como se fossemos um só, e ele faz com que eu me sinta suja, sem pudores, louca. E eu me sinto tão bem. Eu me entrego como se não fosse capaz de dizer não. Eu nunca diria não. Quero-o assim: egoísta, cretino. Ele me fode e eu fico deitada, enquanto ele se veste e vai embora sem dizer qualquer palavra, deixando as coisas nos mesmos lugares que estavam antes.

Então quando chego ele já está dormindo e eu fico observando enquanto dorme e eu me sinto bem por voltar e ficarmos juntos. Não seria completa se ele não houvesse, se não me quisesse, se não me ouvisse. Deito para dormir ao seu lado e sei que amanhã pela manhã serei eu novamente, enquanto ele me deixa partir sem dizer qualquer palavra e sem nos despedirmos.