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Olhe aqui, preste atenção
Essa é a nossa canção…

Roberto Carlos – Nossa canção

Choveu igual ao dia em que ela nasceu. Não vi apenas como coincidência, mas não fiquei pensando em qual era o significado. Eu não pensei nisso, mas com certeza ele pensou, afinal, ele sempre pensa muito sobre essas coisas. “Choveu quando ela nasceu”. Eu sorri e passei meu braço em volta do dele.

Nós tivemos outros dois filhos, mais velhos, e os dois estavam lá, com suas esposas e nossos netos. As crianças brincavam o tempo todo. Elas faziam muito barulho, e como agora as coisas estavam muito mais silenciosas, foi bom ter novamente as crianças gritando, gente conversando… O barulho era tão grande quanto o dela passando pela porta de entrada e gritando por nós. Depois que os meninos casaram, ela continuou preenchendo cada canto da casa.

Ela sempre foi a garotinha do papai. Talvez por isso tenha sido tão dolorido para ele o primeiro dia de aula dela. Ela não queria ir, nada mais comum. Ele tentou conversar, dizendo que seria bom, mas ela não dava atenção. Quando chegamos à escola, ele pediu que ela saísse do carro e ela disse que não. Ele então levantou, foi até o banco de trás e falou firme que ela saísse. Ela começou a chorar e pediu que ele não a levasse. Em parte achei a cena engraçada, vi como birra. Mas ela era minha garotinha também, e aquilo me doeu um pouco. Ele soltou o cinto dela e ela começou a chorar, a todo pulmão. Os dois foram caminhando até o portão de entrada, os passinhos ligeiros, tentando acompanhar os passos do pai, olhando para ele com o rostinho cheio de lágrimas. A professora a recebeu e segurou seus braços, enquanto ela tentava se soltar para correr atrás do pai, que não olhou nenhuma vez para trás. Ele não queria que ela o visse com lágrimas nos olhos. Quando chegou ao carro, sentou ao meu lado e começou a chorar. Eu pensei que era apenas uma reação por tê-la visto chorar, mas então eu percebi o que aquilo significava: daquele momento em diante, ele não estaria para sempre ao seu lado para defendê-la, mas também sabia que era preciso que aquilo acontecesse.

No fim da manhã fui buscá-la e ela ainda estava com aquele biquinho de choro que ela sempre teve. O pai queria ter ido, mas não podia por conta do trabalho. Assim que cheguei percebi nos olhinhos dela, enquanto procuravam por ele, que ela estava muito mais triste agora porque não poderia correr e pular nas pernas dele e chorar novamente, mesmo que ficasse brigando e reclamando por ter ficado sozinha.

Quando chegamos, ela ficou olhando pela porta, esperando-o chegar. Assim que viu seu carro, correu para o sofá e ficou sentada, com um bico imenso vermelho e os bracinhos cruzados. Ele entrou e perguntou por ela e eu mostrei onde ela estava. Sentou ao seu lado e perguntou se estava tudo bem. Apenas silêncio. Ele disse “Diga querida, como foi o colégio?”. Ela então o abraçou e começou a chorar, perguntando por que ele havia ido embora. Ele apenas a abraçou de volta. “Desculpa”.

E assim nossa garotinha foi crescendo. Uma das coisas que mais gosto de lembrar é de como ela gostava de ficar dançando nos pés dele. Uma cena que toda família passa e que sempre me alegrava muito. Acho que é porque eu a via tão segura, tão feliz. Os três sorrindo.

E foi assim durante todo o tempo, até que seus pés ficaram grandes demais e os pés do seu pai ficaram cansados demais para que as coisas não se alterassem. Mas ele não estava cansado o bastante no dia em que ela chegou do colégio, agora já com treze anos, chorando porque o garoto que ela gostava não gostava mais dela. Eles ficaram sentados por muito tempo enquanto ela chorava. Ele com os braços em volta dela, dizendo que ficaria tudo bem. E eu o vi chorando pela segunda vez. E eu percebi. Percebi que ele sabia que além de não poder mais estar para sempre ao seu lado para defendê-la, chegaria o dia em que ele também deixaria de ser o homem mais importante da sua vida.

Como eu disse, quando nossos filhos saíram, a casa ainda parecia cheia devido a seu jeito de ser, até que chegou o dia de ela também partir. Apareceu uma ótima oportunidade de emprego em outro estado, algo realmente bom. No começo eu me opus, não queria que a minha filhinha fosse embora para tão longe, mas seu pai, com uma calma que eu nunca veria em mim mesma, apoiou-a e disse que ela deveria se agarrar à oportunidade.

O período entre ela decidir que iria e o dia de ela realmente ir foram muito bons. O mundo éramos nós três. Ele esteve muito feliz. Não que eu tivesse achado isso estranho, não achava que a tristeza lhe seria natural. Apenas pensei que ele ficaria triste por não restar dúvida de que ela iria embora. No fundo eu sabia que por trás do seu sorriso ele realmente estava, mas não queria que ela percebesse, pois, como ele me disse depois, tinha receio de ela desistir por nós.

No dia de ela partir, fomos deixá-la no aeroporto. Ela havia chorado a noite inteira até adormecer no colo do pai. Seu vôo era cedo, de forma que dormimos pouco, e eu não havia deixado de perceber a ausência de sono ao meu lado o resto da noite. Na hora do embarque foi que eu realmente aceitei que nossa filhinha estava indo embora e que já não cabia mais a nós decidir entre ela ficar ou partir. Quando ela passou pela porta e sumiu da nossa vista, enquanto eu enxugava minhas lágrimas, olhei para meu marido e não vi uma lágrima sequer.

Ao chegarmos em casa, fui fazer qualquer coisa, não lembro bem o quê, e ele foi para a sala e ligou a TV. Depois de um tempo, chamei por ele e ele não respondeu. Olhei para o sofá e estava vazio. Procurei pela casa e o encontrei no quarto dela, sentado em sua cama, ainda desarrumada, segurando um ursinho desses qualquer que ela não conseguia deixar fora da cama. Sentei ao seu lado e pus minha mão sobre a dele e ele chorou contido. Eu apenas o abracei. E eu não percebi, pois não foi preciso. Ele me perguntou: “E quando ela precisar de mim?”.

Depois de alguns anos, entre idas e vindas, nossas e dela, a ausência tornou-se parte da rotina. A maior freqüência de visita dos nossos netos fez com que certos vazios fossem preenchidos. Até o dia em que o telefone tocou e recebemos a notícia que mudava tudo de forma definitiva: ele não era mais o homem mais importante da vida dela.

Quando estávamos no carro eu não soltei sua mão sequer por um momento. Depois de tantos anos, seus cabelos já estavam quase todos brancos e seu corpo mais frágil, e a rapidez com que tudo aconteceu só fez com que ele precisasse muito mais de mim agora do que nunca precisou antes. Eu segurava sua mão e ele olhava o caminho à frente, sem dizer uma palavra qualquer.

Quando chegamos todos já estavam lá. Depois de pouco tempo, quando todos já esperavam, ele a pegou pela mão e entrou orgulhoso, com passos firmes, levando-a pelo braço. Andou toda a distância sem titubear um segundo sequer, sem desmanchar qualquer vez o seu sorriso, enquanto ela caminhava novamente olhando para ele, com os olhos cheios de lágrimas, porém, dessa vez, eles poderiam ficar ali todo o tempo do mundo. Ela não ficaria mais zangada com ele.

À frente, eles estavam lindos, e em todo momento ela olhava para o pai e sorria o sorriso mais lindo possível. Ele apertava minha mão e sorria de volta.

No fim, fomos para o local que receberíamos os amigos e todos falavam conosco, parabenizando-nos por ela estar tão linda. Depois de algum tempo sentamos nos lugares reservados e de onde veríamos sua primeira dança, agora como marido e mulher. Chegava o momento de ela dançar junto ao pai e quando virei para ele para lhe avisar não o encontrei. Tomei um susto e fiquei tentando encontrá-lo, sem sucesso, até que a banda parou de tocar. Minha filha também o procurava, também sem sucesso, até que a banda começou a tocar novamente e meu filho, sorrindo, tocou em meu braço e apontou na direção da banda. Lá esteve meu marido, frágil, com o microfone na mão, em frente a banda, e começou a tocar a música que ele sempre sorria quando ouvia e eu nunca entendia o porquê. Sua voz saiu frágil, demonstrando sua idade:

“Olhe aqui, preste atenção, essa é a nossa canção. Vou cantá-la seja onde for, para nunca esquecer o nosso amor. Nosso amor…”

Senti de repente uma emoção que nunca havia sentido antes e meus olhos no mesmo instante se encheram de lágrimas. Em volta, reações parecidas: garotas com as mãos no rosto; os rapazes dando sorrisos tímidos, mas sinceros; algumas senhoras já com lágrimas nos rostos também e um silêncio absoluto, de forma que aquela voz frágil de repente era tudo o que ouvia.

“Você partiu e me deixou. Nunca mais você voltou pra me tirar da solidão. E até você voltar, meu bem eu vou cantar…”

De repente ele se calou, não conseguia mais dizer qualquer palavra. Seu rosto agora coberto de lágrimas lhe deixava ainda mais frágil, o que ele tentava esconder baixando a cabeça, esforçando-se para concluir a canção, mas não conseguia. Tentei então me levantar para ficar ao lado dele, mas meu filho me segurou pelo braço, e sorrindo, apesar do rosto também coberto de lágrimas, apontou novamente para frente sorrindo. Minha filha caminhava na direção dele e com todo o carinho do mundo tirou o microfone da sua mão, deixou de lado e o abraçou por alguns segundos. Depois levantou sua cabeça, enxugou suas lágrimas e disse baixinho “papai, eu serei sempre a sua garotinha”. A música continuou e os dois ficaram dançando abraçados. O pai e sua garotinha.

Não fosse isso.

Publicado: 18/04/2011 em Crônicas, Do peito
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não fosse isso / e era menos
não fosse tanto / e era quase
Paulo Leminski

Muitas vezes a pior coisa que faço é dar início a algo, embora esse algo simplesmente comece e quando dou por mim já me parece absurda a nova percepção das coisas quando comparo o novo pensamento com aquele de pouco tempo atrás. Passo então a me ver totalmente envolvido e me desapegar não é mais assim tão fácil, mesmo quando concluo que não existe afinidade, nem vontade de compartilhar algo futuro. Nem mesmo estar junto é assim tão bom, com exceção dos momentos em que não é preciso dizer nada e basta deixar o corpo agir por si. Assistir isto se tornar o nosso pilar e acreditar que seria fácil de desconstruir foi um erro. Como também foi não entender que o problema seria, em uma nítida repetição de outras vezes, a falta de uma definição clara entre o que acho e o que realmente acontece.

Ajo por impulso e digo um monte de coisas, mas logo depois paro para pensar, diante do fim iminente, sobre o que realmente me incomoda. Deveriam ser a palavras ditas, agora e antes, já que estamos zangados e dizemos coisas que não queremos ou que queremos apenas para magoar, mas não é isso. Deveria ser o medo de ficar só, mas se nunca esteve realmente presente, isso também não se torna um motivo definitivo. Talvez seja o ego, por querer que a outra pessoa simplesmente implore para não deixar para lá, embora ela apenas diga “tudo bem!” e diga “obrigada, adeus!”, mas não é a primeira vez que escuto isso, apesar de ser a primeira vez que isto me incomoda tanto e embora pareça que antes eu sabia, agora eu já não sei mais.

Sei que deixo tudo confuso quando digo que está tudo errado, que não tem sentido, que a base está ruindo e que isto é o certo. Digo tudo de forma clara, palavra por palavra. Digo tudo o que quero para provar um ponto de vista que acredito, mas não queria acreditar, e cinco minutos depois eu já me arrependi e quero voltar atrás, mas parece que não dá mais, pois ela desistiu. Desistiu não só de nós dois, mas também de me entender, de me aceitar como sou, pois sou cansativo e dramático e patético. Mas eu sempre lutei pelo que quis então eu queria sentir que a pessoa também luta por nós, mas quando ela diz não em um silêncio insuportável e deixa pra lá isso me dói e então a chamo de covarde e digo que é muito mais fácil fugir. Mas eu sei que no fim o covarde sou eu por afirmar algo de maneira tão certa e logo após me arrepender e voltar atrás apenas porque não aconteceu o que eu gostaria que acontecesse.

Um covarde.

Ela me diz que dói e eu digo que me dói também. Tento, sem saber bem porque, encontrar as palavras corretas, inversas as que disse a pouco, para ter de volta algo que provavelmente não quero mais. Mas não sou eu quem diz tudo o que eu precisava dizer, e quando escuto sinto raiva e a odeio e a quero longe de mim. Mas ela está certa, para que manter quando se pode evitar? Para que fingir que será um tempo feliz, quando sequer conseguimos evitar nos magoarmos quando estamos presentes?

Do lado de dentro.

Publicado: 25/12/2010 em Do peito
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Abre essa porta.
Que direto você tem de me privar
desse castelo que eu construi?
Los Hermanos – Do lado de dentro

 

Como não compreende se é tão claro?
Você percebe que me dou
e que já não existe mais nada em mim, nem mesmo o que eu sou?
Se é que ainda sou alguém quando há sua ausência.

Será que nem mesmo as marcas que desenho em mim provam o contrário?
Escrevo sem dizer em linhas que me marcam e esqueço do amor na dor.

Não vá, pois sou tua.
Não vá, pois se for, não mais existirei e a culpa será tua.
Não me deixe! Não pode!
Eu sou tua e você é meu.
Será que você não entende?
Será que você…

Oh, meu amor, eu te amo. Tanto!
Aceitaria até que você deitasse com outra
enquanto ficaria em casa cuidando das tuas roupas.
E quando você voltasse, eu estaria.
Sequer ligaria se você não me olhasse,
se não me dissesse,
se não me quisesse.

Eu estaria lá, fingindo uma felicidade que não existe
só para não te deixar partir.
Para você saber que minha voz é a tua voz.
Meu olhar o teu olhar.
Minha alma teu brinquedo.

Dê-me apenas tua mão e eu me darei,
pois sei que você se importa com isso.

Eu sei.
Eu sinto.
E não me deixe fora.
Por favor, não me deixe.

Sinto novamente quando toca a pele.
Imagino que é você para tentar acreditar
que é isso que você provoca em mim,
mas eu não consigo.
Pois quando a dor passa, eu volto para você
e esqueço que estive distante, longe de mim,
sem saber direito se é certo,
se é que ainda existe certo além do que você me diz.

E não desfaça agora. Por favor, não desfaça.
Não desfaça jamais.
Não desfaz o que eu fiz,
mesmo sem você saber.
Os planos, a casa, as crianças.
Era tudo o que você queria, certo?
Então porque agora, tão perto?
Por que agora não mais?

Vou cortar para sentir algo.
Vou cortar até partir.
Já que não posso mais, pois está além.
Além do que construí.

All I need is somewhere
I feel the grass beneath my
A walk on sand
A fire, I can warm my hands
My joy will be complete

Belle and Sebastian – Asleep on a sunbeam

 

O despertador toca enquanto o sol ainda está nascendo. Ao seu lado ele dorme enquanto um pequeno feixe de luz passa pela janela e acerta seu rosto e ela pensa o quanto ele é lindo. Levanta, vai até o banheiro, olha-se no espelho, não gosta do que vê. Prende o cabelo em um rabo de cavalo e molha o rosto para despertar. Ela não queria sair, mas sabe que precisa, ainda mais depois dos últimos dias. O resultado do exagero.

Logo ela está correndo, passando por casas ainda quietas; por carros que já deixam o céu mais cinza; por pessoas que não olham para ela. Por um minuto isto faz com que ela se pergunte quando todos ficaram tão frios ao ponto de sentirem vergonha de dizer algo para um desconhecido qualquer que cruza seu caminho.

Ela corre com um bom ritmo. A volta ao exercício foi difícil por conta da torção que sofreu no pé, o que fará com que ela logo se sinta incomodada. O tempo segue e são cinco, dez, vinte, trinta, cinqüenta pessoas correndo em sua direção. “Gente demais, espaço de menos” ela pensa. E antes que o pé comece a doer, ela pára para descansar um pouco e fica pensando que deveria viajar enquanto não começa a chover. Tem tantos lugares que ela gostaria de ir esses dias, mas ela queria ir para algum lugar que ainda não tivesse passado alguma vez pela sua cabeça. Ele até que poderia dar uma forcinha, dar idéias. Uma viagem para um lugar próximo já seria uma ótima opção, desde que os dois se divertissem. Há quereres em comum e há diferenças gritantes, mas se ela tiver que fazer uma fogueira para se aquecer, por ela tudo bem, desde que ele não se incomode em andar o quanto ela quiser.

Ela vê a pequena cicatriz que tem no braço e lembra-se de quando, décadas atrás, estava brincando com algumas amiguinhas na rua, quando tropeçou e numa reação normal esticou os braços à frente para não se machucar. “Pelo menos hoje está bem menor”, sempre a mesma afirmação. Até hoje ela lembra muito bem de quando aquele garotinho com quem ela nunca tinha conversado a ajudou a levantar, preocupado em saber se estava tudo bem. Hoje aquele garoto é um adulto, pai de duas crianças, dormia com um pequeno feixe de luz no seu rosto e continua com aquele mesmo sorriso que ela viu pela primeira vez quando respondeu a ele que estava sim tudo bem.

O tempo passa um pouco mais e ela já não quer mais correr. “Melhor voltar, amanhã recupero o tempo que perdi hoje”, do mesmo jeito de todos os outros dias. Vai caminhando, pensando no monte de trabalho que a espera mais tarde. Às vezes é um saco, às vezes é somente alegria.

Ao entrar escuta o barulho de pratos e xícaras. As crianças já tomaram banho e estão sentadas assistindo televisão, esperando o horário de sair. Ele está na pia, lavando os pratos, de terno pronto para ir trabalhar, aguardando apenas ela retornar. Ela passa pelas crianças, pisando na ponta dos pés e pede silêncio como o dedo sobre o sorriso, enquanto elas ficam rindo olhando para o seu jeito engraçado. Ela chega perto de mansinho e antes que ele perceba passa os braços a sua volta, apertando seu corpo contra o corpo dele. Ele se assusta e pensa em virar para abraçá-la. Desiste. Ele já sente seu coração bater forte junto ao dela.

Dois de nós.

Publicado: 25/09/2010 em Crônicas
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You and I have memories
longer than the road that
stretches out ahead.
The Beatles – Two of us

Quando acordei tentei abraçá-la, mas pareceu tão antinatural que era como se cada palavra que havíamos trocado noite passada fosse apenas um conjunto de motivos para que acreditássemos que valia e pena continuar com aquilo. Havia tantas coisas a serem ditas e nós fingíamos que elas não existiam para que tudo continuasse bem, sem sabermos que era exatamente por não falarmos sobre o que destruíamos que destruiríamos o pouco que ainda existia.

Levantei certo do que temia e ela se cobriu, enquanto eu me vestia para ir embora sem me despedir, sem qualquer carinho, enquanto nosso futuro ficava para trás. Quando caminhava até o carro meu telefone tocou. Atendi e pelo seu tom de voz eu já sabia e não pensei duas vezes: entrei no carro e segui para sua casa, fugindo da cama a qual não voltaria e da rotina cretina que me esperava pelo resto do dia.

Quando entrei na sua rua ela já me esperava do lado de fora da casa. Parei, ela pulou dentro do carro e me cumprimentou, sem olhar para mim, com um “e aí?” tão natural que se ao menos uma vez eu ouvisse um “olá, como está?” eu perguntaria se havia algo errado. Quer dizer, eu sabia que havia algo errado, mas não era sobre esse tipo de coisa errada que estou falando. Assim que a porta bateu acelerei e sai o mais rápido que pude. Eu sabia que nos sentíamos perdidos e que buscávamos qualquer novo lugar lá na frente. Dois de nós.

Depois de poucos minutos, um silêncio de horas, e vários olhares meus enquanto ela, com o banco inclinado e os pés apoiados na janela, fitava fixamente pontos que ficavam para trás lá fora, perguntei se queria conversar sobre o que havia acontecido. Ela disse que não porque era a mesma merda de sempre. Eu não sabia qual era a mesma merda de sempre, ela nunca me dizia, e era sempre assim, então não insisti.

Ela abriu a bolsa e acendeu um cigarro. Fiquei puto e ela sabia disso. Essa era a forma de ela me agradecer: de lado, calada e fumando um maldito cigarro. Falei para ela deixar de ser babaca e jogar fora. Ela não deu atenção. Eu fiquei mais puto. Ela continuou fumando.

Chegamos a um posto de gasolina e enquanto eu pedia para abastecer, ela pediu grana para umas cervejas e cigarro. Voltou com três cervejas, tomando uma rapidamente para não dar tempo das outras esquentarem. Saímos novamente e ela pôs uma cerveja entre minhas pernas, falando para eu beber. Pensei em perguntar se ela era estúpida, mas antes que eu falasse qualquer coisa, ela falou para eu me fuder e tomar logo a merda da cerveja. Comecei a beber então a merda da cerveja enquanto ela acendia outro cigarro, fazendo com que eu sentisse vontade de parar o carro e mandá-la saltar fora, idéia que me fugiu dois segundos depois porque eu nunca faria isso com ela, não depois de tudo o que passamos juntos.

Antes que eu terminasse minha cerveja, ela já havia terminado as suas e a tomou de mim, bebendo de uma só vez o restante. Ela sabia com eu estava me sentindo e, olhando para frente, pediu que eu deixasse para lá o fato de ela ser uma cretina. Eu falei que ela não era cretina, mas que estava agindo que nem uma. Ela se enfiou no banco e passou novamente a olhar o caminho que passava pela janela. Eu disse então que a desculpava e a adorava, enquanto ela, sem olhar para mim, disse que eu era uma bicha por falar aquilo. Olhei para ela e percebi que ela ensaiou um sorriso, o que fez com que eu também sorrisse.

Olhei para sua perna e percebi na meia branca que usava até abaixo da saia um listra vermelha que se formava. Disse o que via e ela se cobriu rapidamente, o que me assustou. Perguntei o que era aquilo e ela não me disse. Eu percebi o que era, já havia visto aquilo em outras pessoas, mas não sabia como agir. Não pensei que as coisas estavam tão ruins assim. Será que eu estava tão focado em me sentir bem falando sobre meus problemas e achando normal ela não querer falar sobre si que fui negligente ao não forçá-la em dizer como se sentia, ou sobre o que fazia, ou pelo que passava?

Parei o carro de uma vez, fazendo com que ela sentasse e olhasse para mim assustada. Perguntei o que tinha acontecido e ela não disse nada, apenas fitou seus próprios pés. Bati no volante e perguntei que merda estava acontecendo com ela. Baixinho ela falou que ele a machucava. Fiquei completamente atordoado. Apesar de saber a resposta, mesmo assim perguntei quem a machucava. Ela respondeu que seu pai a machucava. Por um segundo eu me vi tomado de raiva não com quem lhe fazia mal, mas com ela por não me ter contado antes sobre isso, mas logo eu deixei isso de lado e pensei em dizer algo que pudesse de alguma forma fazer algum bem a ela, mas não havia qualquer coisa que pudesse ser dita.

Ficamos um tempo parados, com ela ainda fitando seus pés enquanto eu olhava para o volante. Perguntei por que ela fazia aquilo e ela não me respondeu nada. Perguntei novamente e ela continuou em silêncio. Olhei para ela e segurei sua mão, esperando que ela a afastasse, o que não aconteceu e me surpreendeu, e perguntei novamente por que ela fazia aquilo. Ela então afastou minha mão bruscamente e antes que eu pudesse dizer algo ela abriu a porta do carro e saiu correndo pelo acostamento. Soltei o cinto o mais rápido que pude e corri atrás dela. Quando a alcancei a segurei pelos braços e ela tentou se soltar, com a cara tomada de ódio ao olhar para mim. Falei para ela ter calma e ela gritou que eu não tinha o direito de perguntar sobre qualquer coisa a ela. Falei que eu tinha sim o direito e ela me perguntou por qual motivo eu só passava a me preocupar agora, se eu nunca havia me preocupado antes. Respondi que me preocupava sim e que havia perguntado milhares de vezes sobre como ela se sentia ou o que tinha acontecido, e que ela nunca respondia. Ela então disse que queria sim falar, mas que nunca era fácil para ela. Disse ainda que eu perguntava uma vez e na negação que seguia eu não insistia, porque eu realmente não estava interessado em escutar, pois eu só pensava em mim mesmo.

Aquilo acabou comigo porque era verdade. Eu me senti cheio de culpa, tanto que nem consegui olhar novamente para seu rosto, mas sabia que ela olhava para mim, colhendo seu próprio mérito ao me atingir daquela maneira. Ela então puxou forte seus braços e caminhou até o carro. Quando voltei, ela estava novamente sentada no banco inclinado, olhando pela janela pelo caminho que agora parecia ter parado para sempre. Eu entrei, pus o cinto e saí novamente, sabendo que tudo o que já havíamos sido um dia nunca mais seria o mesmo.