Posts com Tag ‘Belle and Sebastian’

All I need is somewhere
I feel the grass beneath my
A walk on sand
A fire, I can warm my hands
My joy will be complete

Belle and Sebastian – Asleep on a sunbeam

 

O despertador toca enquanto o sol ainda está nascendo. Ao seu lado ele dorme enquanto um pequeno feixe de luz passa pela janela e acerta seu rosto e ela pensa o quanto ele é lindo. Levanta, vai até o banheiro, olha-se no espelho, não gosta do que vê. Prende o cabelo em um rabo de cavalo e molha o rosto para despertar. Ela não queria sair, mas sabe que precisa, ainda mais depois dos últimos dias. O resultado do exagero.

Logo ela está correndo, passando por casas ainda quietas; por carros que já deixam o céu mais cinza; por pessoas que não olham para ela. Por um minuto isto faz com que ela se pergunte quando todos ficaram tão frios ao ponto de sentirem vergonha de dizer algo para um desconhecido qualquer que cruza seu caminho.

Ela corre com um bom ritmo. A volta ao exercício foi difícil por conta da torção que sofreu no pé, o que fará com que ela logo se sinta incomodada. O tempo segue e são cinco, dez, vinte, trinta, cinqüenta pessoas correndo em sua direção. “Gente demais, espaço de menos” ela pensa. E antes que o pé comece a doer, ela pára para descansar um pouco e fica pensando que deveria viajar enquanto não começa a chover. Tem tantos lugares que ela gostaria de ir esses dias, mas ela queria ir para algum lugar que ainda não tivesse passado alguma vez pela sua cabeça. Ele até que poderia dar uma forcinha, dar idéias. Uma viagem para um lugar próximo já seria uma ótima opção, desde que os dois se divertissem. Há quereres em comum e há diferenças gritantes, mas se ela tiver que fazer uma fogueira para se aquecer, por ela tudo bem, desde que ele não se incomode em andar o quanto ela quiser.

Ela vê a pequena cicatriz que tem no braço e lembra-se de quando, décadas atrás, estava brincando com algumas amiguinhas na rua, quando tropeçou e numa reação normal esticou os braços à frente para não se machucar. “Pelo menos hoje está bem menor”, sempre a mesma afirmação. Até hoje ela lembra muito bem de quando aquele garotinho com quem ela nunca tinha conversado a ajudou a levantar, preocupado em saber se estava tudo bem. Hoje aquele garoto é um adulto, pai de duas crianças, dormia com um pequeno feixe de luz no seu rosto e continua com aquele mesmo sorriso que ela viu pela primeira vez quando respondeu a ele que estava sim tudo bem.

O tempo passa um pouco mais e ela já não quer mais correr. “Melhor voltar, amanhã recupero o tempo que perdi hoje”, do mesmo jeito de todos os outros dias. Vai caminhando, pensando no monte de trabalho que a espera mais tarde. Às vezes é um saco, às vezes é somente alegria.

Ao entrar escuta o barulho de pratos e xícaras. As crianças já tomaram banho e estão sentadas assistindo televisão, esperando o horário de sair. Ele está na pia, lavando os pratos, de terno pronto para ir trabalhar, aguardando apenas ela retornar. Ela passa pelas crianças, pisando na ponta dos pés e pede silêncio como o dedo sobre o sorriso, enquanto elas ficam rindo olhando para o seu jeito engraçado. Ela chega perto de mansinho e antes que ele perceba passa os braços a sua volta, apertando seu corpo contra o corpo dele. Ele se assusta e pensa em virar para abraçá-la. Desiste. Ele já sente seu coração bater forte junto ao dela.

Monday morning wake up knowing
that you’ve  got go to school
Tell your mum what to expect,
she says it’s right out of the blue

Belle and Sebastian – Expectations

Ando tão ocupado com um monte de coisas que a única maneira de fugir um pouco disso tudo é procurando algo mais a fazer. Algo apenas por fazer, quando eu quiser, como eu quiser e sobre o que eu quiser. De certa forma, um egocentrismo necessário.

Não o egocentrismo arrogante. Não vou começar a falar em terceira pessoa nem dizer que o que importa para mim é mais importante do que todas as outras coisas do mundo. Só preciso sentir aquela sensação boa de fazer algo que me agrada, que me liberta e que parece bom ao meu lado autocrítico.

Tudo em que estou envolvido (universidade e trabalho), apesar de trazerem benefícios a mim, não são fins em mim mesmo. Talvez com as coisas da universidade, e tentativa de conseguir um mestrado, essa observação se encaixe mal, afinal, partir para um mestrado deve, pelo menos, atingir expectativas bem pessoais. Entretanto, caso eu me interesse por uma linha de pesquisa específica, apresentando apenas uma idéia com base no meu próprio interesse, sem considerar o que o futuro orientador considera interessante, estarei condenando o projeto ao fracasso. Eu diria que é 50/50.

Já no trabalho, apesar de existir um crescimento profissional na agregação de novos conhecimentos e execução de estudos de casos, se não houver uma autonomia 100%, você acaba fazendo apenas as coisas que a empresa, ou o dono, acredita que precisa, e nem sempre eles estão certos. Ou seja, giro em função dela, o que não torna o processo injusto, afinal, recebo um salário, ou pelo menos um embrião disso, para apresentar resultados que, no futuro, façam-se merecedor de um salário melhor (será?).

Passei muito tempo sem escrever nada. Não foi um bloqueio, foi apenas um desinteresse. Talvez porque eu estava tentando escrever de uma forma que não combina comigo ou que não sou tão bom. Então eu resolvi desencanar e escrever somente por escrever. Sem pensar em estilo, técnica, nada disso. É observar ou pensar ou sentir algo que vale a pena ser dito e simplesmente dizer.