Dinheiro muda tudo

Publicado: 04/01/2011 em Do peito, FDP
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– Instrumental –
The Smiths – Money changes everything

 

Cerca de seis anos se passaram desde a última vez que nos vimos. Não posso dizer que foi uma despedida do tipo que deixa saudade, afinal, para mim sequer foi uma despedida, foi mais como ver os amigos se despedindo de alguém com quem eles se importavam. Eu me importava com meus amigos, o que acabou tornando aquele momento algo significativo, porém, bem distante de qualquer sentimento bom em relação a sua partida, embora também não chegasse próximo de algo ruim. Indiferença talvez.

Sabendo agora de sua morte eu poderia me deixar render por aquela coisa inocente ou hipócrita de enumerar coisas boas, mas não há coisas boas. Para ser bem sincero, não tive as melhores das impressões desde a primeira vez que te vi e com o tempo você conseguiu cativar ainda mais minha aversão, de forma que se algum dia eu lembrar de qualquer impressão positiva no mesmo momento eu a renegarei. Bem, esteja onde estiver não me leve a mal, isto é apenas o que sinto.

Se decidires por algum motivo aparecer para conversar sobre o porquê, saiba que não vou dar qualquer resposta. Também não me peça para fazer qualquer pergunta, pois acho que já não quero saber. Acho que até mais do que isso. Não quero diálogos, nem brigas, nem qualquer coisa. Bem, talvez eu gostasse de tirar o incômodo de nunca ter dito a você o quão completamente estúpido você se portava na maioria das vezes, tentando provar o que não era preciso; dominar o que deveria ser sempre campo livre; dizer o que não precisava.

Sei o quanto é duro o caminho para chegar ao lugar que mais se deseja, e isso, independente de qualquer coisa que possa ser dita, foi mais do que uma conquista, foi um mérito! Mas o que mudou ou o que deveria mudar? Sei que ainda estou no começo da estrada e por isso ainda terei de descobrir por mim mesmo, mas já enxergo tantas coisas fúteis, tantas conquistas vazias, tantas marcações desnecessárias, tanta demonstração de poder estúpida no seu exemplo que me questiono se terminarei da mesma forma que você terminou.

Bem, mas se algum dia aparecer para conversar, você acha que devo pedir que alguém me avise se eu deixar de ser quem sou? Ou seria melhor pedir que alguém me avise se eu me tornar mais do que eu sou hoje? Bem, se pararmos para pensar sobre você, a segunda opção caberia bem melhor. Você não concorda?

Do lado de dentro.

Publicado: 25/12/2010 em Do peito
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Abre essa porta.
Que direto você tem de me privar
desse castelo que eu construi?
Los Hermanos – Do lado de dentro

 

Como não compreende se é tão claro?
Você percebe que me dou
e que já não existe mais nada em mim, nem mesmo o que eu sou?
Se é que ainda sou alguém quando há sua ausência.

Será que nem mesmo as marcas que desenho em mim provam o contrário?
Escrevo sem dizer em linhas que me marcam e esqueço do amor na dor.

Não vá, pois sou tua.
Não vá, pois se for, não mais existirei e a culpa será tua.
Não me deixe! Não pode!
Eu sou tua e você é meu.
Será que você não entende?
Será que você…

Oh, meu amor, eu te amo. Tanto!
Aceitaria até que você deitasse com outra
enquanto ficaria em casa cuidando das tuas roupas.
E quando você voltasse, eu estaria.
Sequer ligaria se você não me olhasse,
se não me dissesse,
se não me quisesse.

Eu estaria lá, fingindo uma felicidade que não existe
só para não te deixar partir.
Para você saber que minha voz é a tua voz.
Meu olhar o teu olhar.
Minha alma teu brinquedo.

Dê-me apenas tua mão e eu me darei,
pois sei que você se importa com isso.

Eu sei.
Eu sinto.
E não me deixe fora.
Por favor, não me deixe.

Sinto novamente quando toca a pele.
Imagino que é você para tentar acreditar
que é isso que você provoca em mim,
mas eu não consigo.
Pois quando a dor passa, eu volto para você
e esqueço que estive distante, longe de mim,
sem saber direito se é certo,
se é que ainda existe certo além do que você me diz.

E não desfaça agora. Por favor, não desfaça.
Não desfaça jamais.
Não desfaz o que eu fiz,
mesmo sem você saber.
Os planos, a casa, as crianças.
Era tudo o que você queria, certo?
Então porque agora, tão perto?
Por que agora não mais?

Vou cortar para sentir algo.
Vou cortar até partir.
Já que não posso mais, pois está além.
Além do que construí.

Eu não passo de um malandro,
De um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola.
Novos baianos – Mistério do planeta

 

Quando acordo pela manhã ele me envolve e eu me sinto dele. Eu me desconstruo e me perco em seus braços, mesmo quando não há firmeza. É tudo tão urgente, tão necessário. Eu me sinto tão bem. Não quero sair, mas não tenho opção. Deixo-o com um beijo, com todo o amor que posso sentir, e vou embora. Não gosto de olhar para trás, mas sei que ele fica como quem quer mais e não se despede, nunca se despediu. A única certeza que ele tem é que logo voltarei e serei somente dele, enquanto ele será somente meu.

Então chego e ele já está me esperando. Não há urgência, é exatamente o inverso. É como se houvesse todo o tempo do mundo e tudo fosse durar eternamente. Eu lhe abraço e ele me beija com calma, suave, enquanto desço as mãos pelo seu corpo, tirando sua blusa devagar, enquanto ele passa a mão no meu pescoço, nos meus cabelos, beijando minha boca, meu rosto. Ele tira toda a minha roupa, fazemos amor e eu deito a cabeça sobre seu peito, falando sobre coisas bobas, tão necessárias, que me fazem sentir que eu não quero ir embora jamais, mas preciso ir. Despedimo-nos sempre, como se fosse esta a última vez que nos veremos. É necessário. É o que preciso.

Então o encontro no mesmo lugar de sempre e nós sentamos para conversar. Ele não me toca e eu gosto que seja assim. Eu quase nunca falo muito, enquanto ele sempre tem muito a dizer. Mas não é chato, pelo contrário, ouço sempre tantas coisas boas que sempre me impressiono. Adoro olhar sua boca enquanto ele fala de um jeito somente dele, como se cada palavra fosse pensada e bem distribuída em frases feitas para me encantar e que me fazem ser algo além do que realmente posso ser. E nós passamos horas e horas assim e é como se fosse tudo bem rápido. Não queria partir, mas tenho que ir. Parto pensando em tudo o que ele me disse e já sinto sua falta.

Então o encontro e quando abro a porta não tenho tempo de dizer qualquer palavra. Ele apenas me puxa e me engole, sem deixar brechas para que eu possa dizer não, e quando percebo, ele já está dentro de mim, como se fossemos um só, e ele faz com que eu me sinta suja, sem pudores, louca. E eu me sinto tão bem. Eu me entrego como se não fosse capaz de dizer não. Eu nunca diria não. Quero-o assim: egoísta, cretino. Ele me fode e eu fico deitada, enquanto ele se veste e vai embora sem dizer qualquer palavra, deixando as coisas nos mesmos lugares que estavam antes.

Então quando chego ele já está dormindo e eu fico observando enquanto dorme e eu me sinto bem por voltar e ficarmos juntos. Não seria completa se ele não houvesse, se não me quisesse, se não me ouvisse. Deito para dormir ao seu lado e sei que amanhã pela manhã serei eu novamente, enquanto ele me deixa partir sem dizer qualquer palavra e sem nos despedirmos.

All I need is somewhere
I feel the grass beneath my
A walk on sand
A fire, I can warm my hands
My joy will be complete

Belle and Sebastian – Asleep on a sunbeam

 

O despertador toca enquanto o sol ainda está nascendo. Ao seu lado ele dorme enquanto um pequeno feixe de luz passa pela janela e acerta seu rosto e ela pensa o quanto ele é lindo. Levanta, vai até o banheiro, olha-se no espelho, não gosta do que vê. Prende o cabelo em um rabo de cavalo e molha o rosto para despertar. Ela não queria sair, mas sabe que precisa, ainda mais depois dos últimos dias. O resultado do exagero.

Logo ela está correndo, passando por casas ainda quietas; por carros que já deixam o céu mais cinza; por pessoas que não olham para ela. Por um minuto isto faz com que ela se pergunte quando todos ficaram tão frios ao ponto de sentirem vergonha de dizer algo para um desconhecido qualquer que cruza seu caminho.

Ela corre com um bom ritmo. A volta ao exercício foi difícil por conta da torção que sofreu no pé, o que fará com que ela logo se sinta incomodada. O tempo segue e são cinco, dez, vinte, trinta, cinqüenta pessoas correndo em sua direção. “Gente demais, espaço de menos” ela pensa. E antes que o pé comece a doer, ela pára para descansar um pouco e fica pensando que deveria viajar enquanto não começa a chover. Tem tantos lugares que ela gostaria de ir esses dias, mas ela queria ir para algum lugar que ainda não tivesse passado alguma vez pela sua cabeça. Ele até que poderia dar uma forcinha, dar idéias. Uma viagem para um lugar próximo já seria uma ótima opção, desde que os dois se divertissem. Há quereres em comum e há diferenças gritantes, mas se ela tiver que fazer uma fogueira para se aquecer, por ela tudo bem, desde que ele não se incomode em andar o quanto ela quiser.

Ela vê a pequena cicatriz que tem no braço e lembra-se de quando, décadas atrás, estava brincando com algumas amiguinhas na rua, quando tropeçou e numa reação normal esticou os braços à frente para não se machucar. “Pelo menos hoje está bem menor”, sempre a mesma afirmação. Até hoje ela lembra muito bem de quando aquele garotinho com quem ela nunca tinha conversado a ajudou a levantar, preocupado em saber se estava tudo bem. Hoje aquele garoto é um adulto, pai de duas crianças, dormia com um pequeno feixe de luz no seu rosto e continua com aquele mesmo sorriso que ela viu pela primeira vez quando respondeu a ele que estava sim tudo bem.

O tempo passa um pouco mais e ela já não quer mais correr. “Melhor voltar, amanhã recupero o tempo que perdi hoje”, do mesmo jeito de todos os outros dias. Vai caminhando, pensando no monte de trabalho que a espera mais tarde. Às vezes é um saco, às vezes é somente alegria.

Ao entrar escuta o barulho de pratos e xícaras. As crianças já tomaram banho e estão sentadas assistindo televisão, esperando o horário de sair. Ele está na pia, lavando os pratos, de terno pronto para ir trabalhar, aguardando apenas ela retornar. Ela passa pelas crianças, pisando na ponta dos pés e pede silêncio como o dedo sobre o sorriso, enquanto elas ficam rindo olhando para o seu jeito engraçado. Ela chega perto de mansinho e antes que ele perceba passa os braços a sua volta, apertando seu corpo contra o corpo dele. Ele se assusta e pensa em virar para abraçá-la. Desiste. Ele já sente seu coração bater forte junto ao dela.


Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Legião Urbana – O livro dos dias

Querida amiga,

Tentei por várias vezes e durante certo tempo ver o melhor em tudo, construindo um encanto que seria motivo suficiente para seguir e viver. Mas há o superficial, o repugnante, as tristezas, os vícios, os seres… Com o tempo, o encanto se desfaz e é provável que fique apenas a tristeza, a desilusão e, obviamente, o desencanto. E assim nós nos desconstruímos, dividindo-nos em pedaços menores, buscando tornar a dor pontual, menos agressiva, menos angustiante. Porém, nunca é assim. As dores são pontuais, mas precisamos dos pedaços juntos para sermos completos e, como conseqüência, as dores se tornam uma só: a nossa dor.

Não falo de compartilhamento. Eu tenho as minhas dores, você tem as suas, as pessoas que amamos tem as dores delas. Mesmo quando é por um mesmo motivo, cada um tem a sua própria. Eu não entendo suas dores, mal entendo as minhas!, que são tantas que eu poderia passar a vida inteira observando e me perguntando os porquês que ainda assim eu morreria antes de sequer ter a primeira resposta. Mas é preciso viver ao invés de apenas sobreviver. Temos que encarar as dores e dizer que vai ficar tudo bem, algum dia, mesmo que ainda distante. Parece fácil dizer, certo?, mas é que realmente é muito fácil dizer. Fazer é outro século. Se coubesse apenas a nós mesmo é provável que levasse um tempo mais razoável, mas como tomar conta de si sozinho num mundo em que outras seis bilhões de pessoas estão perdidas da mesma forma que você? Quem não se sente assim já está morto. Seria bom acreditar fielmente que vai ficar tudo bem, que todos os problemas são solucionáveis, que as pessoas que amamos nunca vão nos decepcionar, mas não somos mais crianças e sonhos e crenças infantis devem terminar junto à infância. Pessoas dizem não querer deixar morrer jamais a criança que existem dentro delas. Metade disso é acerto, a outra é equívoco.

Uma vez perguntei à minha mãe porque a lua me seguia quando eu caminhava e ela respondeu que era porque ela seguia os meninos bonitos. Hoje somos racionais, mas tem gente que prefere acreditar que a lua o segue por sua beleza; que os anjinhos lavam o céu quando chove; que ele é azul porque deus pintou assim; que se cavarmos um buraco bem grande no chão vamos chegar à China; que cebola é bom e que se comermos verdura vamos ficar mais fortes; que papai Noel existe e que se ele não deu presente para o seu amiguinho é porque ele foi ruim com os pais e você deve ser bonzinho. Hoje, é quase tudo preto no branco, não existem outras cores: a lua tem movimento de translação; a chuva é culpa do ciclo de evaporação-condensação; o céu é azul por culpa da forma como a luz se espelha na atmosfera; que para chegar à China você precisa gastar muito dinheiro e fazer uma viagem de horas em um avião; que cebola definitivamente é horrível e que comer verdura não te deixa mais forte, mas ajuda na dieta; que Papai Noel vende em 12x sem juros no cartão e que seu amiguinho mais bonzinho não ganhou presente porque ou o pai não podia, ou não liga ou gastou com comida, e que aquele seu amiguinho que joga o prato na mãe e que bate na cara do pai ganhou de presente a bicicleta que você sempre quis. Assim é a vida. Isto é normal, é se tornar adulto. É uma merda, mas é assim. Merda é uma terceira cor com a qual convivemos e conviveremos muito.

Como se já não fosse difícil suficiente crescer enfrentando a insegurança, a timidez, a incerteza, logo chega a época em que o coração perde a razão que foi morar no cérebro em um processo de transferência inexplicável e que deve ser culpa de algum ancestral filho da puta que nos doou o maldito gene. Passamos então a nos tornar incompletos mesmo com todos os pedaços doloridos que juntamos para simplesmente sermos. Não sei como, mas em um dia qualquer encontramos um pedaço livre, que de tão lindo não podemos manter apenas com nós mesmos e doamos a alguém esperando que haja interesse, carinho, abrigo e um eterno desejo. Mas esse pedaço é perdido por quem deveria cuidar e no seu lugar fica um buraco que só sumirá ou diminuirá suas dimensões quando outros buracos surgirem por outros descuidos. E você pensava que quando fizesse dezoito anos iria ganhar um carro…

Porém, nossa dor às vezes torna-se nada quando vemos as pessoas as quais queremos bem não tão bem. Essa empatia pelo querido é natural, e se para alguém não é, tenha certeza que isto fala mais sobre a pessoa em si do que sobre o sentimento citado.

Quando nossos amigos choram devemos chorar junto ou enxugarmos suas lágrimas. Quando o mundo parece um pesadelo cabe a quem tem carinho mostrar que o mundo pode ser um sonho, nem que seja apenas com dois personagens que se divertem e vivem apenas quando estão juntos. Esses momentos podem ser os menores e os menos duradouros, mas com certeza são as lembranças que nos confortarão quando os pesadelos voltarem. E ainda existem vezes em que alguém quer nos confortar, mas faltam as palavras, que somem, e não sobra uma sequer para demonstrar o sentir imenso, o carinho, o amor.

Li há poucos dias que o ciúme entre um casal existe e é totalmente aceitável quando um deles dá um abraço em um terceiro. Pode parecer tolice, um gesto pequeno, mas, como foi lido, por alguns segundos o mundo de quem vê pertence totalmente à outra pessoa, um mundo no qual ela escolheu viver, mas que provavelmente não tem a escolha de partir. Por pouco tempo, esse alguém foi arrancado do seu mundo e resta apenas ficar sozinho, perdido, em qualquer lugar longe dali, ainda que por alguns eternos segundos.

Não vou mentir para você. Viver é difícil, bem mais do que deveria ser na verdade. A conclusão é que o mundo nos decepciona, machuca, tenta nos corromper. Porém, há alegria, há diversão, há coisas boas. Então esquece vai, deixa para lá, vem e nos abraça, pois durante esse espaço de tempo nós seremos seu mundo, enquanto o nosso será você, e nós não precisaremos de mais nada.

Com carinho,

 

O boxeador.

Publicado: 21/10/2010 em Do peito
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I am older than I once was
And younger than I’ll be that’s not unusual.
No it isnt strange after changes upon changes
We are more or less the same
After changes we are more or less the same
Simon & Garfunkel – The Boxer

 

A fumaça nos prédios com os garotos e as garotas com frio nos trilhos e o cheiro da brisa e a cevada deixa azedo o sorriso na partida e na chegada e as putas nos postos nas ruas nos cantos são contos e encantos aos ricos e há miséria nos gritos e nas promessas e o incerto e as mentiras e o resto e a estação em que não chega e não deixa voltar faz uma clara diferença dos partires do querer e o do conseguir e é tudo merda e mentira e não está mais o que foi construído e fica apenas o que é vidro e se despedaça e a única coisa boa é ficar à toa e quem sabe se o engano é para sobreviver enquanto morre sem perceber e aos poucos enquanto deitado no conforto com o coração velho tolo que muda o mundo quando tudo está mudo mas que silencia quando há som e no seu rosto sério sob o céu azul escuro se desfaz no dia cinza mas ninguém vê ou percebe ou sente ou se despede já que os olhos talvez não fechem e os dedos talvez hesitem enquanto alguém cede e inverte e perde e se diverte com o adeus e o até mais e o talvez eu não volte já que é hora e não há qualquer novidade e deixe mas volte e fique bem e deixe mais e deixe mas volte e deixe mais e não olhe ou pense ou pese e é você só você ninguém além de você que se esconde e finge que é bom e finge cantar no tom enquanto o tempo desafina então também finja ser bom ou apenas finja já que parece o mais certo ainda que fique confuso quando visto de perto enquanto cai o céu e o bom senso e o bêbado e não quero estar só pois não tenho história além da minha e se eu cair também não é nada demais pois talvez não haja saudade mas estou sendo egoísta e sei que é mentira já que na origem existe então eu volto contente e sinto que mesmo assim estou perdido e que finamente pela primeira vez não faço idéia de como fazer parecer que está a meu favor o destino e eu sangro e sonho e acordo e morro para sempre sozinho até a próxima avenida.

Cabeça de camurça.

Publicado: 28/09/2010 em Crônicas, FDP
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Why do you come here?
When you know it makes things hard for me?
When you know, oh
Why do you come?

Morrissey – Suedehead

Quer dizer que ela começou a sair com alguém? Interessante. Se eu vou fazer alguma coisa? Claro, você me conhece, mas ainda é muito cedo, vou dar mais um tempo.

[…]

Então ele a pediu em namoro? Então é hora. O que eu vou fazer? Primeiro eu dou um jeito de cruzar com ela em algum canto, mas eles têm que estar junto. Por quê? Eu sei que ela vai ficar sem graça, fica com medo de me magoar ou uma besteira assim. Como se fosse ela que tivesse me dado o fora. Pois é, daí você já pode até fazer um julgamento. Concordo, e é exatamente aí que está a brecha. Sim, sim. Na hora que eu passar por ela é só eu fingir que estou surpreso, mas não é só isso. Tenho que dar um jeito de parecer de uma forma negativa por ter encontrado ela com alguém. Onde? Se ela não mudou seus hábitos, faço até idéia de onde ela vai estar amanhã. Tudo bem, eu te conto como foi.

[…]

Olá?! Sim, estou bem. Prazer. Não, não posso, tenho que fazer algo, estava apenas procurando alguém. Aviso sim. Abraço. O prazer foi meu.

[…]

Você tinha que ter visto o susto que ela tomou, o mais difícil foi não rir. Então… A gente ficou junto quanto tempo, quatro anos? Seis?! Certo. Se você parar para pensar, nesse momento de começo de namoro, com certeza ela deve estar com um monte de dúvidas do tipo se quer entrar logo em outro namoro, ou se ainda sente algo por mim, essas coisas. É, com certeza, ela deve estar insegura. Concordo. Isso, mais do que ela já é. Pois é, isso mesmo. Se eu aparecer agora enquanto ela ainda está cheia de dúvidas, qualquer contato comigo vai fazer com que ela pense em mim pelo menos um pouquinho, em como se sentiu, como eu me senti, blá blá blá. Agora? Vou dar uns dois dias e aí vou mandar uma mensagem sem algo demais, só um oi, um como está, talvez. O ideal é mandar uns dois dias depois, e não pode ser cedo, tem que ser tarde da noite. Será que vou ter que te explicar tudo, não dá para você pegar o feeling? Se passar alguns poucos dias, vai parecer que fiquei pensando nela esses dois dias. Isso. Vai fazer ela se perguntar porque eu estava pensando nela àquela hora da noite. Obrigado. Saí com ela ontem, mas ela não transa bem. Não quero mais, ela é do tipo só uma vez. Se você quiser eu te apresento, mas vou logo avisando que fiz de tudo, cuidado para não respingar em ti. Vai se fuder. Viadinho. Pode deixar.

[…]

Acorda otário. Ela acabou de responder. Disse que também tinha ficado surpresa em me ver. Vai ser tão fácil que se ela não dificultar um pouquinho vai perder metade da graça.

[…]

Dá uma olhada. Mas eu não estou dizendo nada demais, só que quero sair para conversar, para desencanar de vez e sermos amigos. Quanto tempo você acha? Aposto cinco minutos.

[…]

Quatro minutos?! Foi mais rápido do que eu pensava. Amanhã. Vou responder dizendo que pego ela em casa. Eu te ligo depois que a deixar

[…]

Você está linda. De nada. Obrigado. Está tudo bem, e no seu? Sério, parabéns. Sempre disse que você merecia. Não disse? Então deveria ter dito, desculpa. Nem tanto, algumas coisas mudaram. Sério, sério. Você quer comer alguma coisa? Podemos sim, sempre gostei de lá. Não? Caramba, eu estou me enrolando todo. Só um pouco nervoso. Nada, nada, é só que… Deixa para lá, vamos só aproveitar hoje, tudo bem? Sério, não há nada demais. Já disse que você está linda? Obrigado.

[…]

Chegamos. Eu também gostei muito. Perdão, foi sem querer, foi só a força do hábito. Sério, não tem problema? Não quero estragar isso que está começando agora. Você é ótima sabia? Carinha de sorte esse que você está namorando. Que foi? Vai conta. Tudo bem, você conta depois. Boa noite. Você está linda, não esquece. Ligo sim. Beijo.

[…]

“Também adorei, boa noite”.

[…]

Mandei uma mensagem hoje pela manhã. Falei que queria vê-la novamente. Ela disse que não dava, porque tinha o aniversário de uma sobrinha do babaquinha lá. Só um “ok”. Assim ela vai ficar pensando se fiquei triste ou zangado. Se ela achou que fiquei zangado, ela vai me mandar uma mensagem mais tarde dizendo para eu não ficar zangado.

[…]

Pois é, acabou de chegar. Foram quatro anos… Sim, sim, seis. Tenho que ter cuidado para não errar se ela perguntar algo. Até.

[…]

“Como foi ontem? Não, hoje não posso. Essa semana está toda cheia. Se der ligo segunda para ti. Até mais”.

[…]

Olá. Não estou não. Sério. Vai fazer algo hoje? Vamos comer algo? Já ia sugerir. Certo. Às nove, certo? Beijos.

[…]

Serei repetitivo se disser que você está linda? Obrigado. Aqui está bom? Vinho? Garçom?! Só mais uma taça, não é demais. Adoro quando você faz esse sorriso. Nada. Quer dizer, só deu um pouco de saudade, sabe? Sinto sua falta. Não fica assim, desculpa pelo que disse. Não estou calado. Nada. Fiquei um pouco zangado sim. Eu sei que não tenho o direito, mas é que às vezes… Não sei. Acho que estou confuso. Acho melhor irmos. Não, não, você não estragou nada. Vamos? Não fica assim, você não estragou nada. Eu… Por que você fez isso? Não quero deixar você confusa. Eu só…

[…]

Goza pra mim, vai. Goza pra mim.

[…]

Saiu melhor do que imaginei. Isso mesmo, minha casa. Só você vendo, foi tudo perfeito. Até isso. Humrum. Isso. Disse que eu era a pessoa mais carinhosa do mundo. No mínimo. Dou duas semanas. Até agora acertei todas. De acordo.

[…]

Não errei uma. Só mais duas semanas e mando passear. Claro que eu não vou dar o fora assim. Pois é, tem que deixar uma raiz plantada, vai que chega uma estiagem. Ela disse que era por que ia voltar para mim. Isso mesmo, ele não vai querer voltar já que o motivo foi esse. No mínimo. Hoje à noite. Super-empolgada, quase senti pena. Tomo banho lá mesmo e vou direto para a casa dela. Não é sorte estar com as duas, é só fazer bem-feito. Otário. Só se for as duas mãos.

[…]

Sei lá, parei nem para pensar. Uns quatro minutos. Claro que não. Só se foi depois, no chuveiro. Levantei e fui para o computador. Disse que a culpa era dela por ser tão gostosa. Foda-se.

[…]

“Não posso. Estudando”.

[…]

Na frente dela. Ligou umas cem vezes. Foi logo perguntando por qual motivo eu estava fazendo aquilo. Falei que não devia satisfação a ela, que não estávamos namorando. Com certeza. Eu disse que ela tinha deduzido isso e que eu não tinha obrigado ela a terminar. Pois é. Sei lá onde. Não, não, vou apenas mandar uma mensagem dizendo que não dá. E o problema é meu? Quanto eu tiver a fim procuro novamente.