All I need is somewhere
I feel the grass beneath my
A walk on sand
A fire, I can warm my hands
My joy will be complete

Belle and Sebastian – Asleep on a sunbeam

 

O despertador toca enquanto o sol ainda está nascendo. Ao seu lado ele dorme enquanto um pequeno feixe de luz passa pela janela e acerta seu rosto e ela pensa o quanto ele é lindo. Levanta, vai até o banheiro, olha-se no espelho, não gosta do que vê. Prende o cabelo em um rabo de cavalo e molha o rosto para despertar. Ela não queria sair, mas sabe que precisa, ainda mais depois dos últimos dias. O resultado do exagero.

Logo ela está correndo, passando por casas ainda quietas; por carros que já deixam o céu mais cinza; por pessoas que não olham para ela. Por um minuto isto faz com que ela se pergunte quando todos ficaram tão frios ao ponto de sentirem vergonha de dizer algo para um desconhecido qualquer que cruza seu caminho.

Ela corre com um bom ritmo. A volta ao exercício foi difícil por conta da torção que sofreu no pé, o que fará com que ela logo se sinta incomodada. O tempo segue e são cinco, dez, vinte, trinta, cinqüenta pessoas correndo em sua direção. “Gente demais, espaço de menos” ela pensa. E antes que o pé comece a doer, ela pára para descansar um pouco e fica pensando que deveria viajar enquanto não começa a chover. Tem tantos lugares que ela gostaria de ir esses dias, mas ela queria ir para algum lugar que ainda não tivesse passado alguma vez pela sua cabeça. Ele até que poderia dar uma forcinha, dar idéias. Uma viagem para um lugar próximo já seria uma ótima opção, desde que os dois se divertissem. Há quereres em comum e há diferenças gritantes, mas se ela tiver que fazer uma fogueira para se aquecer, por ela tudo bem, desde que ele não se incomode em andar o quanto ela quiser.

Ela vê a pequena cicatriz que tem no braço e lembra-se de quando, décadas atrás, estava brincando com algumas amiguinhas na rua, quando tropeçou e numa reação normal esticou os braços à frente para não se machucar. “Pelo menos hoje está bem menor”, sempre a mesma afirmação. Até hoje ela lembra muito bem de quando aquele garotinho com quem ela nunca tinha conversado a ajudou a levantar, preocupado em saber se estava tudo bem. Hoje aquele garoto é um adulto, pai de duas crianças, dormia com um pequeno feixe de luz no seu rosto e continua com aquele mesmo sorriso que ela viu pela primeira vez quando respondeu a ele que estava sim tudo bem.

O tempo passa um pouco mais e ela já não quer mais correr. “Melhor voltar, amanhã recupero o tempo que perdi hoje”, do mesmo jeito de todos os outros dias. Vai caminhando, pensando no monte de trabalho que a espera mais tarde. Às vezes é um saco, às vezes é somente alegria.

Ao entrar escuta o barulho de pratos e xícaras. As crianças já tomaram banho e estão sentadas assistindo televisão, esperando o horário de sair. Ele está na pia, lavando os pratos, de terno pronto para ir trabalhar, aguardando apenas ela retornar. Ela passa pelas crianças, pisando na ponta dos pés e pede silêncio como o dedo sobre o sorriso, enquanto elas ficam rindo olhando para o seu jeito engraçado. Ela chega perto de mansinho e antes que ele perceba passa os braços a sua volta, apertando seu corpo contra o corpo dele. Ele se assusta e pensa em virar para abraçá-la. Desiste. Ele já sente seu coração bater forte junto ao dela.


Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Legião Urbana – O livro dos dias

Querida amiga,

Tentei por várias vezes e durante certo tempo ver o melhor em tudo, construindo um encanto que seria motivo suficiente para seguir e viver. Mas há o superficial, o repugnante, as tristezas, os vícios, os seres… Com o tempo, o encanto se desfaz e é provável que fique apenas a tristeza, a desilusão e, obviamente, o desencanto. E assim nós nos desconstruímos, dividindo-nos em pedaços menores, buscando tornar a dor pontual, menos agressiva, menos angustiante. Porém, nunca é assim. As dores são pontuais, mas precisamos dos pedaços juntos para sermos completos e, como conseqüência, as dores se tornam uma só: a nossa dor.

Não falo de compartilhamento. Eu tenho as minhas dores, você tem as suas, as pessoas que amamos tem as dores delas. Mesmo quando é por um mesmo motivo, cada um tem a sua própria. Eu não entendo suas dores, mal entendo as minhas!, que são tantas que eu poderia passar a vida inteira observando e me perguntando os porquês que ainda assim eu morreria antes de sequer ter a primeira resposta. Mas é preciso viver ao invés de apenas sobreviver. Temos que encarar as dores e dizer que vai ficar tudo bem, algum dia, mesmo que ainda distante. Parece fácil dizer, certo?, mas é que realmente é muito fácil dizer. Fazer é outro século. Se coubesse apenas a nós mesmo é provável que levasse um tempo mais razoável, mas como tomar conta de si sozinho num mundo em que outras seis bilhões de pessoas estão perdidas da mesma forma que você? Quem não se sente assim já está morto. Seria bom acreditar fielmente que vai ficar tudo bem, que todos os problemas são solucionáveis, que as pessoas que amamos nunca vão nos decepcionar, mas não somos mais crianças e sonhos e crenças infantis devem terminar junto à infância. Pessoas dizem não querer deixar morrer jamais a criança que existem dentro delas. Metade disso é acerto, a outra é equívoco.

Uma vez perguntei à minha mãe porque a lua me seguia quando eu caminhava e ela respondeu que era porque ela seguia os meninos bonitos. Hoje somos racionais, mas tem gente que prefere acreditar que a lua o segue por sua beleza; que os anjinhos lavam o céu quando chove; que ele é azul porque deus pintou assim; que se cavarmos um buraco bem grande no chão vamos chegar à China; que cebola é bom e que se comermos verdura vamos ficar mais fortes; que papai Noel existe e que se ele não deu presente para o seu amiguinho é porque ele foi ruim com os pais e você deve ser bonzinho. Hoje, é quase tudo preto no branco, não existem outras cores: a lua tem movimento de translação; a chuva é culpa do ciclo de evaporação-condensação; o céu é azul por culpa da forma como a luz se espelha na atmosfera; que para chegar à China você precisa gastar muito dinheiro e fazer uma viagem de horas em um avião; que cebola definitivamente é horrível e que comer verdura não te deixa mais forte, mas ajuda na dieta; que Papai Noel vende em 12x sem juros no cartão e que seu amiguinho mais bonzinho não ganhou presente porque ou o pai não podia, ou não liga ou gastou com comida, e que aquele seu amiguinho que joga o prato na mãe e que bate na cara do pai ganhou de presente a bicicleta que você sempre quis. Assim é a vida. Isto é normal, é se tornar adulto. É uma merda, mas é assim. Merda é uma terceira cor com a qual convivemos e conviveremos muito.

Como se já não fosse difícil suficiente crescer enfrentando a insegurança, a timidez, a incerteza, logo chega a época em que o coração perde a razão que foi morar no cérebro em um processo de transferência inexplicável e que deve ser culpa de algum ancestral filho da puta que nos doou o maldito gene. Passamos então a nos tornar incompletos mesmo com todos os pedaços doloridos que juntamos para simplesmente sermos. Não sei como, mas em um dia qualquer encontramos um pedaço livre, que de tão lindo não podemos manter apenas com nós mesmos e doamos a alguém esperando que haja interesse, carinho, abrigo e um eterno desejo. Mas esse pedaço é perdido por quem deveria cuidar e no seu lugar fica um buraco que só sumirá ou diminuirá suas dimensões quando outros buracos surgirem por outros descuidos. E você pensava que quando fizesse dezoito anos iria ganhar um carro…

Porém, nossa dor às vezes torna-se nada quando vemos as pessoas as quais queremos bem não tão bem. Essa empatia pelo querido é natural, e se para alguém não é, tenha certeza que isto fala mais sobre a pessoa em si do que sobre o sentimento citado.

Quando nossos amigos choram devemos chorar junto ou enxugarmos suas lágrimas. Quando o mundo parece um pesadelo cabe a quem tem carinho mostrar que o mundo pode ser um sonho, nem que seja apenas com dois personagens que se divertem e vivem apenas quando estão juntos. Esses momentos podem ser os menores e os menos duradouros, mas com certeza são as lembranças que nos confortarão quando os pesadelos voltarem. E ainda existem vezes em que alguém quer nos confortar, mas faltam as palavras, que somem, e não sobra uma sequer para demonstrar o sentir imenso, o carinho, o amor.

Li há poucos dias que o ciúme entre um casal existe e é totalmente aceitável quando um deles dá um abraço em um terceiro. Pode parecer tolice, um gesto pequeno, mas, como foi lido, por alguns segundos o mundo de quem vê pertence totalmente à outra pessoa, um mundo no qual ela escolheu viver, mas que provavelmente não tem a escolha de partir. Por pouco tempo, esse alguém foi arrancado do seu mundo e resta apenas ficar sozinho, perdido, em qualquer lugar longe dali, ainda que por alguns eternos segundos.

Não vou mentir para você. Viver é difícil, bem mais do que deveria ser na verdade. A conclusão é que o mundo nos decepciona, machuca, tenta nos corromper. Porém, há alegria, há diversão, há coisas boas. Então esquece vai, deixa para lá, vem e nos abraça, pois durante esse espaço de tempo nós seremos seu mundo, enquanto o nosso será você, e nós não precisaremos de mais nada.

Com carinho,

 

O boxeador.

Publicado: 21/10/2010 em Do peito
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I am older than I once was
And younger than I’ll be that’s not unusual.
No it isnt strange after changes upon changes
We are more or less the same
After changes we are more or less the same
Simon & Garfunkel – The Boxer

 

A fumaça nos prédios com os garotos e as garotas com frio nos trilhos e o cheiro da brisa e a cevada deixa azedo o sorriso na partida e na chegada e as putas nos postos nas ruas nos cantos são contos e encantos aos ricos e há miséria nos gritos e nas promessas e o incerto e as mentiras e o resto e a estação em que não chega e não deixa voltar faz uma clara diferença dos partires do querer e o do conseguir e é tudo merda e mentira e não está mais o que foi construído e fica apenas o que é vidro e se despedaça e a única coisa boa é ficar à toa e quem sabe se o engano é para sobreviver enquanto morre sem perceber e aos poucos enquanto deitado no conforto com o coração velho tolo que muda o mundo quando tudo está mudo mas que silencia quando há som e no seu rosto sério sob o céu azul escuro se desfaz no dia cinza mas ninguém vê ou percebe ou sente ou se despede já que os olhos talvez não fechem e os dedos talvez hesitem enquanto alguém cede e inverte e perde e se diverte com o adeus e o até mais e o talvez eu não volte já que é hora e não há qualquer novidade e deixe mas volte e fique bem e deixe mais e deixe mas volte e deixe mais e não olhe ou pense ou pese e é você só você ninguém além de você que se esconde e finge que é bom e finge cantar no tom enquanto o tempo desafina então também finja ser bom ou apenas finja já que parece o mais certo ainda que fique confuso quando visto de perto enquanto cai o céu e o bom senso e o bêbado e não quero estar só pois não tenho história além da minha e se eu cair também não é nada demais pois talvez não haja saudade mas estou sendo egoísta e sei que é mentira já que na origem existe então eu volto contente e sinto que mesmo assim estou perdido e que finamente pela primeira vez não faço idéia de como fazer parecer que está a meu favor o destino e eu sangro e sonho e acordo e morro para sempre sozinho até a próxima avenida.

Cabeça de camurça.

Publicado: 28/09/2010 em Crônicas, FDP
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Why do you come here?
When you know it makes things hard for me?
When you know, oh
Why do you come?

Morrissey – Suedehead

Quer dizer que ela começou a sair com alguém? Interessante. Se eu vou fazer alguma coisa? Claro, você me conhece, mas ainda é muito cedo, vou dar mais um tempo.

[…]

Então ele a pediu em namoro? Então é hora. O que eu vou fazer? Primeiro eu dou um jeito de cruzar com ela em algum canto, mas eles têm que estar junto. Por quê? Eu sei que ela vai ficar sem graça, fica com medo de me magoar ou uma besteira assim. Como se fosse ela que tivesse me dado o fora. Pois é, daí você já pode até fazer um julgamento. Concordo, e é exatamente aí que está a brecha. Sim, sim. Na hora que eu passar por ela é só eu fingir que estou surpreso, mas não é só isso. Tenho que dar um jeito de parecer de uma forma negativa por ter encontrado ela com alguém. Onde? Se ela não mudou seus hábitos, faço até idéia de onde ela vai estar amanhã. Tudo bem, eu te conto como foi.

[…]

Olá?! Sim, estou bem. Prazer. Não, não posso, tenho que fazer algo, estava apenas procurando alguém. Aviso sim. Abraço. O prazer foi meu.

[…]

Você tinha que ter visto o susto que ela tomou, o mais difícil foi não rir. Então… A gente ficou junto quanto tempo, quatro anos? Seis?! Certo. Se você parar para pensar, nesse momento de começo de namoro, com certeza ela deve estar com um monte de dúvidas do tipo se quer entrar logo em outro namoro, ou se ainda sente algo por mim, essas coisas. É, com certeza, ela deve estar insegura. Concordo. Isso, mais do que ela já é. Pois é, isso mesmo. Se eu aparecer agora enquanto ela ainda está cheia de dúvidas, qualquer contato comigo vai fazer com que ela pense em mim pelo menos um pouquinho, em como se sentiu, como eu me senti, blá blá blá. Agora? Vou dar uns dois dias e aí vou mandar uma mensagem sem algo demais, só um oi, um como está, talvez. O ideal é mandar uns dois dias depois, e não pode ser cedo, tem que ser tarde da noite. Será que vou ter que te explicar tudo, não dá para você pegar o feeling? Se passar alguns poucos dias, vai parecer que fiquei pensando nela esses dois dias. Isso. Vai fazer ela se perguntar porque eu estava pensando nela àquela hora da noite. Obrigado. Saí com ela ontem, mas ela não transa bem. Não quero mais, ela é do tipo só uma vez. Se você quiser eu te apresento, mas vou logo avisando que fiz de tudo, cuidado para não respingar em ti. Vai se fuder. Viadinho. Pode deixar.

[…]

Acorda otário. Ela acabou de responder. Disse que também tinha ficado surpresa em me ver. Vai ser tão fácil que se ela não dificultar um pouquinho vai perder metade da graça.

[…]

Dá uma olhada. Mas eu não estou dizendo nada demais, só que quero sair para conversar, para desencanar de vez e sermos amigos. Quanto tempo você acha? Aposto cinco minutos.

[…]

Quatro minutos?! Foi mais rápido do que eu pensava. Amanhã. Vou responder dizendo que pego ela em casa. Eu te ligo depois que a deixar

[…]

Você está linda. De nada. Obrigado. Está tudo bem, e no seu? Sério, parabéns. Sempre disse que você merecia. Não disse? Então deveria ter dito, desculpa. Nem tanto, algumas coisas mudaram. Sério, sério. Você quer comer alguma coisa? Podemos sim, sempre gostei de lá. Não? Caramba, eu estou me enrolando todo. Só um pouco nervoso. Nada, nada, é só que… Deixa para lá, vamos só aproveitar hoje, tudo bem? Sério, não há nada demais. Já disse que você está linda? Obrigado.

[…]

Chegamos. Eu também gostei muito. Perdão, foi sem querer, foi só a força do hábito. Sério, não tem problema? Não quero estragar isso que está começando agora. Você é ótima sabia? Carinha de sorte esse que você está namorando. Que foi? Vai conta. Tudo bem, você conta depois. Boa noite. Você está linda, não esquece. Ligo sim. Beijo.

[…]

“Também adorei, boa noite”.

[…]

Mandei uma mensagem hoje pela manhã. Falei que queria vê-la novamente. Ela disse que não dava, porque tinha o aniversário de uma sobrinha do babaquinha lá. Só um “ok”. Assim ela vai ficar pensando se fiquei triste ou zangado. Se ela achou que fiquei zangado, ela vai me mandar uma mensagem mais tarde dizendo para eu não ficar zangado.

[…]

Pois é, acabou de chegar. Foram quatro anos… Sim, sim, seis. Tenho que ter cuidado para não errar se ela perguntar algo. Até.

[…]

“Como foi ontem? Não, hoje não posso. Essa semana está toda cheia. Se der ligo segunda para ti. Até mais”.

[…]

Olá. Não estou não. Sério. Vai fazer algo hoje? Vamos comer algo? Já ia sugerir. Certo. Às nove, certo? Beijos.

[…]

Serei repetitivo se disser que você está linda? Obrigado. Aqui está bom? Vinho? Garçom?! Só mais uma taça, não é demais. Adoro quando você faz esse sorriso. Nada. Quer dizer, só deu um pouco de saudade, sabe? Sinto sua falta. Não fica assim, desculpa pelo que disse. Não estou calado. Nada. Fiquei um pouco zangado sim. Eu sei que não tenho o direito, mas é que às vezes… Não sei. Acho que estou confuso. Acho melhor irmos. Não, não, você não estragou nada. Vamos? Não fica assim, você não estragou nada. Eu… Por que você fez isso? Não quero deixar você confusa. Eu só…

[…]

Goza pra mim, vai. Goza pra mim.

[…]

Saiu melhor do que imaginei. Isso mesmo, minha casa. Só você vendo, foi tudo perfeito. Até isso. Humrum. Isso. Disse que eu era a pessoa mais carinhosa do mundo. No mínimo. Dou duas semanas. Até agora acertei todas. De acordo.

[…]

Não errei uma. Só mais duas semanas e mando passear. Claro que eu não vou dar o fora assim. Pois é, tem que deixar uma raiz plantada, vai que chega uma estiagem. Ela disse que era por que ia voltar para mim. Isso mesmo, ele não vai querer voltar já que o motivo foi esse. No mínimo. Hoje à noite. Super-empolgada, quase senti pena. Tomo banho lá mesmo e vou direto para a casa dela. Não é sorte estar com as duas, é só fazer bem-feito. Otário. Só se for as duas mãos.

[…]

Sei lá, parei nem para pensar. Uns quatro minutos. Claro que não. Só se foi depois, no chuveiro. Levantei e fui para o computador. Disse que a culpa era dela por ser tão gostosa. Foda-se.

[…]

“Não posso. Estudando”.

[…]

Na frente dela. Ligou umas cem vezes. Foi logo perguntando por qual motivo eu estava fazendo aquilo. Falei que não devia satisfação a ela, que não estávamos namorando. Com certeza. Eu disse que ela tinha deduzido isso e que eu não tinha obrigado ela a terminar. Pois é. Sei lá onde. Não, não, vou apenas mandar uma mensagem dizendo que não dá. E o problema é meu? Quanto eu tiver a fim procuro novamente.

Dois de nós.

Publicado: 25/09/2010 em Crônicas
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You and I have memories
longer than the road that
stretches out ahead.
The Beatles – Two of us

Quando acordei tentei abraçá-la, mas pareceu tão antinatural que era como se cada palavra que havíamos trocado noite passada fosse apenas um conjunto de motivos para que acreditássemos que valia e pena continuar com aquilo. Havia tantas coisas a serem ditas e nós fingíamos que elas não existiam para que tudo continuasse bem, sem sabermos que era exatamente por não falarmos sobre o que destruíamos que destruiríamos o pouco que ainda existia.

Levantei certo do que temia e ela se cobriu, enquanto eu me vestia para ir embora sem me despedir, sem qualquer carinho, enquanto nosso futuro ficava para trás. Quando caminhava até o carro meu telefone tocou. Atendi e pelo seu tom de voz eu já sabia e não pensei duas vezes: entrei no carro e segui para sua casa, fugindo da cama a qual não voltaria e da rotina cretina que me esperava pelo resto do dia.

Quando entrei na sua rua ela já me esperava do lado de fora da casa. Parei, ela pulou dentro do carro e me cumprimentou, sem olhar para mim, com um “e aí?” tão natural que se ao menos uma vez eu ouvisse um “olá, como está?” eu perguntaria se havia algo errado. Quer dizer, eu sabia que havia algo errado, mas não era sobre esse tipo de coisa errada que estou falando. Assim que a porta bateu acelerei e sai o mais rápido que pude. Eu sabia que nos sentíamos perdidos e que buscávamos qualquer novo lugar lá na frente. Dois de nós.

Depois de poucos minutos, um silêncio de horas, e vários olhares meus enquanto ela, com o banco inclinado e os pés apoiados na janela, fitava fixamente pontos que ficavam para trás lá fora, perguntei se queria conversar sobre o que havia acontecido. Ela disse que não porque era a mesma merda de sempre. Eu não sabia qual era a mesma merda de sempre, ela nunca me dizia, e era sempre assim, então não insisti.

Ela abriu a bolsa e acendeu um cigarro. Fiquei puto e ela sabia disso. Essa era a forma de ela me agradecer: de lado, calada e fumando um maldito cigarro. Falei para ela deixar de ser babaca e jogar fora. Ela não deu atenção. Eu fiquei mais puto. Ela continuou fumando.

Chegamos a um posto de gasolina e enquanto eu pedia para abastecer, ela pediu grana para umas cervejas e cigarro. Voltou com três cervejas, tomando uma rapidamente para não dar tempo das outras esquentarem. Saímos novamente e ela pôs uma cerveja entre minhas pernas, falando para eu beber. Pensei em perguntar se ela era estúpida, mas antes que eu falasse qualquer coisa, ela falou para eu me fuder e tomar logo a merda da cerveja. Comecei a beber então a merda da cerveja enquanto ela acendia outro cigarro, fazendo com que eu sentisse vontade de parar o carro e mandá-la saltar fora, idéia que me fugiu dois segundos depois porque eu nunca faria isso com ela, não depois de tudo o que passamos juntos.

Antes que eu terminasse minha cerveja, ela já havia terminado as suas e a tomou de mim, bebendo de uma só vez o restante. Ela sabia com eu estava me sentindo e, olhando para frente, pediu que eu deixasse para lá o fato de ela ser uma cretina. Eu falei que ela não era cretina, mas que estava agindo que nem uma. Ela se enfiou no banco e passou novamente a olhar o caminho que passava pela janela. Eu disse então que a desculpava e a adorava, enquanto ela, sem olhar para mim, disse que eu era uma bicha por falar aquilo. Olhei para ela e percebi que ela ensaiou um sorriso, o que fez com que eu também sorrisse.

Olhei para sua perna e percebi na meia branca que usava até abaixo da saia um listra vermelha que se formava. Disse o que via e ela se cobriu rapidamente, o que me assustou. Perguntei o que era aquilo e ela não me disse. Eu percebi o que era, já havia visto aquilo em outras pessoas, mas não sabia como agir. Não pensei que as coisas estavam tão ruins assim. Será que eu estava tão focado em me sentir bem falando sobre meus problemas e achando normal ela não querer falar sobre si que fui negligente ao não forçá-la em dizer como se sentia, ou sobre o que fazia, ou pelo que passava?

Parei o carro de uma vez, fazendo com que ela sentasse e olhasse para mim assustada. Perguntei o que tinha acontecido e ela não disse nada, apenas fitou seus próprios pés. Bati no volante e perguntei que merda estava acontecendo com ela. Baixinho ela falou que ele a machucava. Fiquei completamente atordoado. Apesar de saber a resposta, mesmo assim perguntei quem a machucava. Ela respondeu que seu pai a machucava. Por um segundo eu me vi tomado de raiva não com quem lhe fazia mal, mas com ela por não me ter contado antes sobre isso, mas logo eu deixei isso de lado e pensei em dizer algo que pudesse de alguma forma fazer algum bem a ela, mas não havia qualquer coisa que pudesse ser dita.

Ficamos um tempo parados, com ela ainda fitando seus pés enquanto eu olhava para o volante. Perguntei por que ela fazia aquilo e ela não me respondeu nada. Perguntei novamente e ela continuou em silêncio. Olhei para ela e segurei sua mão, esperando que ela a afastasse, o que não aconteceu e me surpreendeu, e perguntei novamente por que ela fazia aquilo. Ela então afastou minha mão bruscamente e antes que eu pudesse dizer algo ela abriu a porta do carro e saiu correndo pelo acostamento. Soltei o cinto o mais rápido que pude e corri atrás dela. Quando a alcancei a segurei pelos braços e ela tentou se soltar, com a cara tomada de ódio ao olhar para mim. Falei para ela ter calma e ela gritou que eu não tinha o direito de perguntar sobre qualquer coisa a ela. Falei que eu tinha sim o direito e ela me perguntou por qual motivo eu só passava a me preocupar agora, se eu nunca havia me preocupado antes. Respondi que me preocupava sim e que havia perguntado milhares de vezes sobre como ela se sentia ou o que tinha acontecido, e que ela nunca respondia. Ela então disse que queria sim falar, mas que nunca era fácil para ela. Disse ainda que eu perguntava uma vez e na negação que seguia eu não insistia, porque eu realmente não estava interessado em escutar, pois eu só pensava em mim mesmo.

Aquilo acabou comigo porque era verdade. Eu me senti cheio de culpa, tanto que nem consegui olhar novamente para seu rosto, mas sabia que ela olhava para mim, colhendo seu próprio mérito ao me atingir daquela maneira. Ela então puxou forte seus braços e caminhou até o carro. Quando voltei, ela estava novamente sentada no banco inclinado, olhando pela janela pelo caminho que agora parecia ter parado para sempre. Eu entrei, pus o cinto e saí novamente, sabendo que tudo o que já havíamos sido um dia nunca mais seria o mesmo.

Insensatez.

Publicado: 16/09/2010 em Do peito

Vai meu coração ouve a razão,
usa só sinceridade.
Quem semeia vento, diz a razão
colhe sempre tempestade.

Tom Jobim – Insensatez

Acordei de uma noite não dormida, com o rosto ainda cheio de lágrimas, nascidas por ela. Ela está no quarto, ouço que já acordou, então saio para não a encontrar. Não penteio o cabelo, não troco a blusa que ela rasgou quando eu disse que não sentia mais, que nunca senti. No espelho do carro vejo meu rosto ainda vermelho do sangue que brotou leve do lugar que sua unha bateu.

Saio parecendo saber onde quero chegar. Saio com o querer de voltar para dizer que a odeio, mas não sei se é isso. Ando por um bom tempo e depois paro em lugar nenhum, mas tudo bem, comparando com não saber o que sinto não saber onde estou é um problema menor.

Penso no início, quando a única coisa que sabíamos era o querer. Antes de ela partir e voltar, antes de eu sumir para nunca mais a deixar. Mas a deixei novamente, e não quero nunca mais, igual às outras vezes. “Sempre parti incompleto, deixando a outra metade em ti, e isso sempre me fez voltar, mas hoje estou aqui totalmente, inteiro em mim”, escrevo, de forma quase inelegível, em um papel que jogo fora, deixando o vento levar. Acredito que de alguma forma ela receberá e isto me incomoda. Queria tudo só para mim e em mim, diferente de ontem, quando, finalmente, ela me viu por inteiro. Tenho certeza que nesse momento ela tem certeza de nunca-mais-algo-de-ti.

Já não é cedo e eu preciso de um café. Atravesso a rua, compro um vinho, volto ao mesmo lugar e bebo todo de uma vez. Quebro a garrafa e vou juntar os cacos, pois me dói a consciência. Vi uma criança passar há pouco tempo e não quero que ela se corte na volta. Feridas bastam as minhas que ainda estão abertas e sangram, bem mais do que sangrou o corte no rosto. Ela é só uma criança.

Será que desfaço por tanto querer? É confusão isso que me dói no estômago, como se gritasse que já é tempo, apesar de não especificar tempo de quê? Será que o querer é que me conduz o passo? Esta dor no peito é um desejo enorme de magoá-la, tão egoísta, tão urgente? Não preciso das respostas, só não queria as perguntas.

Preciso feri-la. Preciso dizer olhando no seu rosto que não existe mais nada, que o próprio vazio foi consumido pelo que existe. Entro no carro e volto para casa. A confusão já não existe, tudo é claro agora. No caminho sigo pensando nas vezes em que me magoei e a culpando por todas às vezes, mesmo quando não esteve presente, mesmo quando foi culpa de todas as outras.

Abro a porta de uma vez, pronto para a ofender. Ela corre, com a mesma roupa suja de ontem, mas com o rosto banhado de novas lágrimas. Corre e se joga em meus braços, dizendo que me ama, pedindo perdão até mesmo pelos erros que eu cometi. Eu a abraço forte e digo baixinho que também a amo, enquanto a porta se fecha atrás de nós.

Perdedor.

Publicado: 08/09/2010 em Mazela
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Soy un perdedor
I’m a loser baby,
so why don’t you kill me?

Beck – Loser

Hoje acordei com o maldito ombro direito ainda doendo. Dói para caramba, bem no osso. O pior é que nem sei como aconteceu, só sei que dói. Espero estar certo quando digo que foi um jeito errado na hora de dormir e não um problema que vem com a idade.

Acho que esse comentário sobre idade já deu. Não tenho nem 30 anos e esse comentário é mais apropriado para quem tem, sei lá, 31. Quando eu tiver 31 quero ser alguém totalmente diferente. Sei que hoje não tenho 30 anos, não tenho esposa, nem filhos, nem carro, nem casa… Acho que não estou indo tão bem assim. Melhor parar enquanto ainda tenho esperança.

Mas a dor no ombro continua.

Já que falei em dormir, ontem dormi tarde pra caramba. Culpa do cochilo que tirei à tarde. Odeio esses cochilos, pois sempre fico com a impressão de ter perdido horas do dia em vão. Perdi horas que provavelmente eu usaria para fazer algo inútil, deixando para depois outras que eu deveria estar dedicando boa parte do meu tempo, mas mesmo assim fico chateado. O que me incomoda é a falta de opção. Se eu tivesse pelo menos sonhado algo interessante, eu poderia dizer que perdi meu tempo, mas que tive algo em troca para contar aos amigos. Porém, é provável que enquanto eu estivesse contando eu perceberia que já esqueci mais da metade e ficaria com aquela cara tola de quem sabe que tem algo engraçado para contar, mas não lembra.

Hoje era para eu ter ido assistir a uma aula do Kung Fu que quero fazer, ter ido sacar meu salário e ter ido pegar o paletó, emprestado, que preciso usar sábado para uma festa que não sei como ir ou voltar porque não tenho carro, nem uma esposa que tenha carro, nem filhos para eu negar dar a chave do carro que não tenho, nem casa para olhar para a garagem e imaginar que ela terá estacionado um dia o carro que não posso comprar. Do Kung fu desisti porque, obviamente, meu ombro dói. O salário? Não fui sacar porque sei que ele some em um dia por conta das contas, então deixando para amanhã posso dizer que passei um dia com grana. Paletó? Por que tenho a opção de ir buscar amanhã e gosto de usar as opções que tenho.

Então, saí do trabalho e vim para casa, certo de estudar um bocado, sem procrastinar, concentrando-me de vez em botar a monografia pra frente. Fiquei em casa e agora estou escrevendo. Que legal, não é?

Apesar de tudo hoje foi um ótimo dia. No caminho para casa não conheci alguém interessante e mesmo assim me apaixonei. Eu me perdi por essa mulher como nunca me perdi por outro alguém. Essa mulher que… essa mulher… que mulher? Mulher do sonho que não tive; mãe dos filhos que não existem; alma da casa que não moramos.

Cheguei em casa e ao perceber que não tinha nada do que imaginei, senti uma dor insuportável. Um homem, de quase trinta anos, triste sem motivo aparente (para quem vê de fora). A dor foi crescendo e crescendo e crescendo, então percebi que não estava triste porque não tinha mulher, filho, carro, casa ou qualquer outra coisa. Era apenas a porcaria do ombro.

Monday morning wake up knowing
that you’ve  got go to school
Tell your mum what to expect,
she says it’s right out of the blue

Belle and Sebastian – Expectations

Ando tão ocupado com um monte de coisas que a única maneira de fugir um pouco disso tudo é procurando algo mais a fazer. Algo apenas por fazer, quando eu quiser, como eu quiser e sobre o que eu quiser. De certa forma, um egocentrismo necessário.

Não o egocentrismo arrogante. Não vou começar a falar em terceira pessoa nem dizer que o que importa para mim é mais importante do que todas as outras coisas do mundo. Só preciso sentir aquela sensação boa de fazer algo que me agrada, que me liberta e que parece bom ao meu lado autocrítico.

Tudo em que estou envolvido (universidade e trabalho), apesar de trazerem benefícios a mim, não são fins em mim mesmo. Talvez com as coisas da universidade, e tentativa de conseguir um mestrado, essa observação se encaixe mal, afinal, partir para um mestrado deve, pelo menos, atingir expectativas bem pessoais. Entretanto, caso eu me interesse por uma linha de pesquisa específica, apresentando apenas uma idéia com base no meu próprio interesse, sem considerar o que o futuro orientador considera interessante, estarei condenando o projeto ao fracasso. Eu diria que é 50/50.

Já no trabalho, apesar de existir um crescimento profissional na agregação de novos conhecimentos e execução de estudos de casos, se não houver uma autonomia 100%, você acaba fazendo apenas as coisas que a empresa, ou o dono, acredita que precisa, e nem sempre eles estão certos. Ou seja, giro em função dela, o que não torna o processo injusto, afinal, recebo um salário, ou pelo menos um embrião disso, para apresentar resultados que, no futuro, façam-se merecedor de um salário melhor (será?).

Passei muito tempo sem escrever nada. Não foi um bloqueio, foi apenas um desinteresse. Talvez porque eu estava tentando escrever de uma forma que não combina comigo ou que não sou tão bom. Então eu resolvi desencanar e escrever somente por escrever. Sem pensar em estilo, técnica, nada disso. É observar ou pensar ou sentir algo que vale a pena ser dito e simplesmente dizer.