Comum

Publicado: 28/09/2011 em Cotidiano, Crônicas

Foi por tentar lembrar o que sonhava que se viu repassando pequenos problemas que haviam ficado para trás e que aparentemente resolvera. De tanto pensar se viu negando todas as certezas, ao ponto de questionar se as lembranças boas eram realmente lembranças boas ou se havia criado aquilo para sentir que havia feito algo que valia à pena, o que o deixou angustiado, como se estivesse prestes a descobrir que não era, não sabia e não sentia. Começou a pensar e pensar e pensar sobre tudo e sobre todos e simplesmente não conseguia chegar a qualquer lugar, por isso fugiu e criou algo só seu. O irreal ele construiu para sobreviver. E se hoje está vivo… não pode ter sido assim uma decisão tão ruim.

Por mais que quisesse se lembrar de tudo na forma mais detalhada, certo dia parou ao perceber que o que tem em mente é apenas uma peça mal costurada de lembranças quase esquecidas junto ao que é hoje. Talvez até devesse parar, pois é possível que as coisas deixem de ser meias-mentiras para se mostrarem mentiras inteiras. Ou talvez não. Talvez, se buscar ver as coisas por outra perspectiva, até mesmo do avesso, poderia se surpreender com as coisas mais óbvias. Uma confusão.

[…]

Sempre teve maior interesse na partida e no caminho do que na chegada. A partida trás consigo aquela empolgação, aquele monte de expectativas agrupadas, aquela sensação de que algo interessante vai acontecer. Quando a timidez era algo que lhe definia ele não se sentia assim. Era desesperador encontrar algo novo e ter que sair daquele porto seguro que construiu só para si.

[…]

Estes dias esteve pensando sobre mágoas e não conseguiu se lembrar dos nomes e nem dos porquês. Quer dizer, lembrou de apenas alguns mais recentes, mas com estes não se importava então deixou para lá, pois foram conscientes, para ferir.

Será lugar-comum dizer que não voltaria atrás para fazer as coisas de uma forma diferente? Não, ele não quer. Mas gostaria de ter uma nova chance, hoje, para agir com a nova forma, ainda que as palavras do começo fossem as mesmas, que os sorrisos ainda fossem os mesmos. Que os olhares, os carinhos, ainda fossem os mesmos. Ele seria quase que ainda o mesmo. Talvez até lhe irritasse ao dizer que ela estaria errada. Que ela deveria crescer. Que não bebesse tanto. Que tentasse não se machucar ao acreditar que todos estavam contra ela. Ele não faria nada disso. Ele abriria mão de todas as suas opiniões para tê-la perto de si.

Nem ligaria mais se não tivessem os mesmos interesses. Se ele queira cinema enquanto ela queria praia. Ele abriria mão de si só para a agradar. Para ter perto de si mesmo sabendo que qualquer erro que não a satisfizesse pudesse significar ela não lhe querer mais. E se ela errasse talvez até dissesse que era acerto.

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