O livro dos dias.

Publicado: 25/10/2010 em Do peito
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Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Legião Urbana – O livro dos dias

Querida amiga,

Tentei por várias vezes e durante certo tempo ver o melhor em tudo, construindo um encanto que seria motivo suficiente para seguir e viver. Mas há o superficial, o repugnante, as tristezas, os vícios, os seres… Com o tempo, o encanto se desfaz e é provável que fique apenas a tristeza, a desilusão e, obviamente, o desencanto. E assim nós nos desconstruímos, dividindo-nos em pedaços menores, buscando tornar a dor pontual, menos agressiva, menos angustiante. Porém, nunca é assim. As dores são pontuais, mas precisamos dos pedaços juntos para sermos completos e, como conseqüência, as dores se tornam uma só: a nossa dor.

Não falo de compartilhamento. Eu tenho as minhas dores, você tem as suas, as pessoas que amamos tem as dores delas. Mesmo quando é por um mesmo motivo, cada um tem a sua própria. Eu não entendo suas dores, mal entendo as minhas!, que são tantas que eu poderia passar a vida inteira observando e me perguntando os porquês que ainda assim eu morreria antes de sequer ter a primeira resposta. Mas é preciso viver ao invés de apenas sobreviver. Temos que encarar as dores e dizer que vai ficar tudo bem, algum dia, mesmo que ainda distante. Parece fácil dizer, certo?, mas é que realmente é muito fácil dizer. Fazer é outro século. Se coubesse apenas a nós mesmo é provável que levasse um tempo mais razoável, mas como tomar conta de si sozinho num mundo em que outras seis bilhões de pessoas estão perdidas da mesma forma que você? Quem não se sente assim já está morto. Seria bom acreditar fielmente que vai ficar tudo bem, que todos os problemas são solucionáveis, que as pessoas que amamos nunca vão nos decepcionar, mas não somos mais crianças e sonhos e crenças infantis devem terminar junto à infância. Pessoas dizem não querer deixar morrer jamais a criança que existem dentro delas. Metade disso é acerto, a outra é equívoco.

Uma vez perguntei à minha mãe porque a lua me seguia quando eu caminhava e ela respondeu que era porque ela seguia os meninos bonitos. Hoje somos racionais, mas tem gente que prefere acreditar que a lua o segue por sua beleza; que os anjinhos lavam o céu quando chove; que ele é azul porque deus pintou assim; que se cavarmos um buraco bem grande no chão vamos chegar à China; que cebola é bom e que se comermos verdura vamos ficar mais fortes; que papai Noel existe e que se ele não deu presente para o seu amiguinho é porque ele foi ruim com os pais e você deve ser bonzinho. Hoje, é quase tudo preto no branco, não existem outras cores: a lua tem movimento de translação; a chuva é culpa do ciclo de evaporação-condensação; o céu é azul por culpa da forma como a luz se espelha na atmosfera; que para chegar à China você precisa gastar muito dinheiro e fazer uma viagem de horas em um avião; que cebola definitivamente é horrível e que comer verdura não te deixa mais forte, mas ajuda na dieta; que Papai Noel vende em 12x sem juros no cartão e que seu amiguinho mais bonzinho não ganhou presente porque ou o pai não podia, ou não liga ou gastou com comida, e que aquele seu amiguinho que joga o prato na mãe e que bate na cara do pai ganhou de presente a bicicleta que você sempre quis. Assim é a vida. Isto é normal, é se tornar adulto. É uma merda, mas é assim. Merda é uma terceira cor com a qual convivemos e conviveremos muito.

Como se já não fosse difícil suficiente crescer enfrentando a insegurança, a timidez, a incerteza, logo chega a época em que o coração perde a razão que foi morar no cérebro em um processo de transferência inexplicável e que deve ser culpa de algum ancestral filho da puta que nos doou o maldito gene. Passamos então a nos tornar incompletos mesmo com todos os pedaços doloridos que juntamos para simplesmente sermos. Não sei como, mas em um dia qualquer encontramos um pedaço livre, que de tão lindo não podemos manter apenas com nós mesmos e doamos a alguém esperando que haja interesse, carinho, abrigo e um eterno desejo. Mas esse pedaço é perdido por quem deveria cuidar e no seu lugar fica um buraco que só sumirá ou diminuirá suas dimensões quando outros buracos surgirem por outros descuidos. E você pensava que quando fizesse dezoito anos iria ganhar um carro…

Porém, nossa dor às vezes torna-se nada quando vemos as pessoas as quais queremos bem não tão bem. Essa empatia pelo querido é natural, e se para alguém não é, tenha certeza que isto fala mais sobre a pessoa em si do que sobre o sentimento citado.

Quando nossos amigos choram devemos chorar junto ou enxugarmos suas lágrimas. Quando o mundo parece um pesadelo cabe a quem tem carinho mostrar que o mundo pode ser um sonho, nem que seja apenas com dois personagens que se divertem e vivem apenas quando estão juntos. Esses momentos podem ser os menores e os menos duradouros, mas com certeza são as lembranças que nos confortarão quando os pesadelos voltarem. E ainda existem vezes em que alguém quer nos confortar, mas faltam as palavras, que somem, e não sobra uma sequer para demonstrar o sentir imenso, o carinho, o amor.

Li há poucos dias que o ciúme entre um casal existe e é totalmente aceitável quando um deles dá um abraço em um terceiro. Pode parecer tolice, um gesto pequeno, mas, como foi lido, por alguns segundos o mundo de quem vê pertence totalmente à outra pessoa, um mundo no qual ela escolheu viver, mas que provavelmente não tem a escolha de partir. Por pouco tempo, esse alguém foi arrancado do seu mundo e resta apenas ficar sozinho, perdido, em qualquer lugar longe dali, ainda que por alguns eternos segundos.

Não vou mentir para você. Viver é difícil, bem mais do que deveria ser na verdade. A conclusão é que o mundo nos decepciona, machuca, tenta nos corromper. Porém, há alegria, há diversão, há coisas boas. Então esquece vai, deixa para lá, vem e nos abraça, pois durante esse espaço de tempo nós seremos seu mundo, enquanto o nosso será você, e nós não precisaremos de mais nada.

Com carinho,

 

comentários
  1. Juw disse:

    Que lindo, adoraria receber essa carta…

  2. Val disse:

    Mas…mas… se cavar um buraco bem fundo a gente chega até a china. Tem só que passar pelo magma, lavas, mas… a gente chega, né não? =P

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